Saúde mental em tempos de pandemia
DATA
28/04/2020 09:23:59
AUTOR
Joana Sanches, Médica Interna de Medicina Geral e Familiar
ETIQUETAS




Saúde mental em tempos de pandemia

A insegurança, a confusão, a frustração, a angústia, a impotência, a desorganização, a desesperança e inúmeras incertezas pautam o nosso quotidiano. Em poucos dias, os nossos hábitos de vida sofreram uma profunda reviravolta: não mais nos abraçamos, beijamos ou tocamos. A nossa latinidade foi abalada. A máscara retirou-nos a expressividade e distanciarmo-nos do outro tornou-se a maior demonstração de afeto. Fomos forçados ao confinamento no domicílio e as poucas idas ao exterior requerem toda uma parafernália de procedimentos que visam a esterilização do que, inadvertidamente, poderá ter contactado com o inimigo invisível.

Este golpe no nosso equilíbrio, além das vidas ceifadas, tem deixado um profundo rasto de perdas materiais, laborais e situacionais. A nossa estrutura de valores deixou de ser identitária, estando agora em constante mutação, fruto das constantes atualizações de normas de atuação, imposições externas e desenvolvimentos técnico-científicos.

Não raras vezes estabelecemos contacto – também este sob novas formas – com o pânico do outro lado: a desadequação da qualidade e quantidade de informação veiculada pelos media, o receio da proximidade com alguém infetado, a hipervigilância face a qualquer sinal de doença do próprio e dos que o rodeiam, a evicção total da utilização dos serviços de saúde com a ilusão de que as outras maleitas esperam que isto passe. Mas não esperam, não vão esperar.

Ignorar a situação, minimiza-la ou interpretá-la à luz de falsos positivismos fazendo-nos crer que os nossos padrões rotineiros de exigência se manterão inalteráveis é toldar a realidade e protelar o inevitável confronto com a mesma. As emoções percecionadas como negativas – a agressividade, a tristeza, a frustração, a fúria – são processos adaptativos perante a perceção de medo e, quando bem direcionadas e respeitando os ritmos individuais, têm numa crise um enorme potencial criativo: catalisam a construção de novas maneiras de estar, de redefinir valores, de redirecionar preocupações, de desmistificar preconceitos e até mesmo de encontro de motivações intrínsecas.

Devemos, pois, monitorizar a nossa resposta e a dos que nos rodeiam a estas emoções e, sendo estas desadaptativas, o pedido de ajuda torna-se responsabilidade social. É fundamental conversar sobre o que não está a correr bem, reservar espaço para o descanso, lazer, e tempo de sono, priorizar escolhas alimentares saudáveis, evitar consumo de substâncias psicoativas, investir na prática de exercício físico e reforçar a ideia de que, como em qualquer outra crise, trata-se de um estado transitório.   

Nunca como antes fomos tão forçados a redirecionar o foco do tempo futuro para o tempo presente e, por isso, façamos dele tempo de reflexão, de reinvenção, de reorganização, de transformação.

No dizer de Albert Einstein, “A criatividade nasce da angústia, como o dia nasce da noite escura. É na crise que nascem as invenções, os descobrimentos e as grandes estratégias. Quem supera a crise, supera-se a si mesmo sem ficar ‘superado’ (...) Sem crise não há desafios; sem desafios, a vida é uma rotina, uma lenta agonia. Sem crise não há mérito. É na crise que se aflora o melhor de cada um”.

O novo normal e a nova realidade – que alterações provocadas pela pandemia vieram para ficar?
Editorial | Jornal Médico
O novo normal e a nova realidade – que alterações provocadas pela pandemia vieram para ficar?
Acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho. Encontrar uma nova visão e adotar uma nova estratégia útil na nossa prática clínica quotidiana. Valorizar as unidades de saúde por estarem a dar as respostas adequadas e seguras é o mínimo que se exige, mas é urgente e inevitável um plano de investimento nos centros de saúde do Serviço Nacional de Saúde.

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