Um olhar diferente para a dor
DATA
12/05/2020 09:37:16
AUTOR
Natércia Silva, UFS Fafe Sentinela, e Filipe Costa, USF São Nicolau
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Um olhar diferente para a dor

A dor é um sintoma muito frequente nos Cuidados de Saúde Primários (CSP) sendo, muitas vezes, incapacitante. Um estudo realizado em 2019 mostra que a dor tem um impacto importante na qualidade de vida dos doentes, interferindo, em 74% destes, na realização das tarefas quotidianas e em 67% na mobilidade.

Na nossa prática clínica, verificamos que a dor não é apenas um motivo de consulta aberta, surgindo também como queixa adicional nas consultas programadas. Este facto é corroborado pelos dados conhecidos atualmente sobre a sua prevalência, que mostram que 34% dos doentes nos CSP têm dor crónica, ou seja, esta afeta mais do que uma em cada três pessoas. Relativamente à intensidade média da mesma, é de 7 numa escala de 0 a 10, o que corresponde a uma dor moderada a intensa. Muitas vezes, e sobretudo após observarmos muitos doentes, a nossa resposta para o tratamento da dor nestes casos é: “tome um paracetamol”. Contudo, o paracetamol nem sempre é suficiente, pelo menos isoladamente. Como podemos verificar pela escada da dor, o paracetamol encontra-se no 1.º degrau, sendo em muitos casos necessário subir vários degraus para se obter um controlo eficaz da dor. Dar um paracetamol isolado a um doente com dor intensa é como tentar apagar um grande incêndio com um copo de água.

O diagnóstico de dor crónica demora, em média, quatro anos após o seu início. Ora, isto são cerca de 1500 dias de um sintoma não controlado. Este facto é ainda mais preocupante, quando sabemos que temos à disposição várias armas terapêuticas. Segundo o Programa Nacional do Controlo da dor, esta “deve ser encarada como uma prioridade no âmbito da prestação de cuidados de saúde de elevada qualidade, sendo igualmente um factor decisivo para a indispensável humanização dos cuidados de saúde”.

A avaliação da dor, através da utilização de uma das várias escalas disponíveis, deve ser uma prioridade dos profissionais de saúde, na medida em que possibilita uma orientação no tratamento e consequente adaptação do mesmo à sua intensidade. Por exemplo, numa dor crónica intensa, os opióides fortes como a morfina, o tapentadol ou a hidromorfona, podem estar indicados. Contudo, nota-se ainda alguma resistência ao uso de opióides, quer por parte dos profissionais de saúde, quer pelos doentes, motivada por mitos e receios associados à sua utilização. “Vai ficar dependente”, “não vai tolerar a medicação” ou “esta medicação é para doentes com dor oncológica” são algumas das frases que os doentes mais ouvem. A interiorização desta (des)informação pelo utente culminará, posteriormente, numa difícil aceitação desta medicação pelo mesmo.

É, por isso, fundamental, trabalhar na desmistificação destas crenças, processo que deve ser iniciado pelos profissionais de saúde. É verdade que os opióides estão associados a alguns efeitos laterais, mas a grande maioria destes desaparece com a utilização continuada do fármaco. Se nós, profissionais de saúde, temos receio em usar opióides, por que motivo não temos também medo de utilizar anti-inflamatórios não esteróides? Não estarão também os efeitos laterais destes medicamentos subvalorizados? Por que são usados muitas vezes cronicamente, quando há alternativas mais seguras? Na nossa pouca prática clínica observamos um uso exagerado de anti-inflamatórios não esteróides de forma crónica. Em alguns casos, observámos colegas a prescrever opióides fortes apenas em SOS e anti-inflamatórios diários. Não deveria ser o oposto na maioria dos casos?

Torna-se fulcral criar práticas padronizadas de avaliação, diagnóstico e tratamento da dor crónica. É importante apostar não só na formação pré-graduada, olhando para a dor, mais do que um sintoma, como uma “doença”, mas também na formação pós-graduada. Em relação a esta última, ficamos felizes pela constatação do aumento do número de cursos relacionados com a dor, mas consideramos que mais passos importantes ainda podem ser dados nesta que é uma temática que se tornará cada vez mais relevante.

[Biografia]

1 - Chronic Pain Care - Prevalência e Caraterização da Dor Crónica nos Cuidados de Saúde Primários. Jornal Médico. Maio 2019.  

2 - Recomendações para o tratamento farmacológico da dor. Revista Portuguesa de Medicina Geral e Familiar [série na Internet]. 2007 Julho 1; [Citado 15 março 2020]; 23(4):457-64, disponível em: http://www.rpmgf.pt/ojs/index.php/rpmgf/article/view/10384

3 - Direção-Geral da Saúde. Programa Nacional de Controlo da Dor. Maio 2008.

4 - Pedro A., Silva MP. Manual de Rotação de Opióides. 3ª Edição. Junho 2017

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