Dar más notícias não é tarefa fácil, mas também não deve ser encarada como um bicho de sete cabeças
DATA
19/05/2020 10:12:34
AUTOR
Ana Marinho, Interna de MGF
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Dar más notícias não é tarefa fácil, mas também não deve ser encarada como um bicho de sete cabeças

Má notícia é toda aquela passível de alterar de forma drástica a perspetiva do doente em relação ao seu futuro.

Existe ainda uma grande dificuldade em comunicar más notícias por parte dos médicos, pela complexidade dos aspetos emotivos que lhe estão associados, tratando-se o ato de dar más notícias uma situação geradora de stresse para o clínico, sentindo-se este, muitas vezes, tentado a evitar essa tarefa. Por outro lado, a preparação nesta área é também deficitária, o que acentua muitos dos receios dos médicos.

Nunca se deve dizer ao doente nada que não seja verdadeiro e, simultaneamente, não se deve dizer mais do que o doente quer saber, sendo este balanço muitas vezes difícil de conseguir, daí se terem criado diferentes protocolos para a comunicação de más notícias, como é o caso do protoloco SPIKES.

O protocolo SPIKES é um modelo de entrevista clínica para a comunicação de más notícias que consiste em seis etapas: Setting (preparar o que é possível antecipar – estudar a história do doente; procurar um local privado para dar a notícia; sentar o doente de forma a transmitir que não temos pressa; envolver os familiares, se for da vontade do doente; conectar-se com o doente mantendo contacto visual, tocando no braço ou mão do mesmo se este estiver confortável com isso; evitar interrupções), Perception (perceber o que o doente já sabe), Invitation (compreender o quanto o doente quer saber; se ele, num primeiro momento, optar por não querer saber detalhes, o médico deve-se colocar à disposição para esclarecer dúvidas futuras ou para conversar com um familiar, se for a vontade do doente), Knowledge (antes de dar a má notícia devemos dar um “tiro de aviso” antecipando a má notícia de forma a diminuir o choque e dar tempo para processar informação, usando frases como “infelizmente tenho más notícias” ou “lamento informa lo que”; dar conhecimento e informação ao doente numa linguagem compreensível, e passando a informação aos poucos, certificando-se periodicamente de que o interlocutor está a entender o que está lhe está a ser dito; devem ser evitadas frases como “Não há mais nada que possamos fazer”), Emotion (os doentes podem reagir de diferentes formas, como silêncio, choro e raiva, devemos saber responder às emoções do mesmo com respostas empáticas), Strategy (resumir; discutir as opções de tratamento e o plano, a decisão do plano deve implicar uma partilha de decisões entre médico-doente; clarificar dúvidas do doente; deve ser programado um contacto para breve, garantindo o acompanhamento; deve ser transmitida disponibilidade e apoio).

A informação sobre a patologia do doente só deve ser transmitida à família com o consentimento do mesmo.

Quando a família tem conhecimento do diagnóstico ou prognóstico grave, mas refere que não pretende que o doente tenha conhecimento sobre o mesmo, pode gerar um conflito entre a relação do médico com o doente e com a sua família, nestas situações não nos devemos esquecer que o nosso dever é para com o doente, contudo não devemos menosprezar a opinião da família. Nestes casos, não devemos mentir ao doente se nos perguntar, contudo também não lhe podemos impor a verdade se não estiver interessado em ter conhecimento da sua situação. Devemos tranquilizar a família justificando que não diremos nada ao doente que ele não queira saber.

A comunicação de más notícias de forma ineficiente pode resultar em maior stresse, dificuldade de ajustamento e pior outcome para o doente e pode traduzir-se num risco acrescido de ansiedade e burnout para o clínico.

A comunicação de más notícias de forma adequada é uma competência que pode e deve ser aprendida, treinada e aperfeiçoada ao longo do tempo, sendo os protocolos de comunicação de más notícias uma forma especializada de treinamento das habilidades de comunicação, podendo, portanto, ser de grande utilidade.

O médico deve antecipar, reconhecer e minimizar as dificuldades inerentes à comunicação adequada de más notícias.

 

Referências bibliográficas

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