Desculpem mas eu li! O que eu nunca gostaria de ter escrito… Por um novo 25 de abril
DATA
03/06/2020 16:32:51
AUTOR
Rui Cernadas
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Desculpem mas eu li! O que eu nunca gostaria de ter escrito… Por um novo 25 de abril

A pandemia, além das características próprias e do enorme mediatismo que gira em seu redor, tem obviamente reflexos de grande dimensão na mortalidade, sobretudo dos grupos etários mais elevados e entre os doentes com polipatologia.

Mas no plano sanitário, por comparação com o quadro terrível de 1918 por exemplo, ou mesmo com os efeitos permanentes e continuados da combinação explosiva entre a poluição atmosférica e as alterações climáticas, os seus efeitos podem estar muito abaixo do que serão as consequências desta calamidade social e económica.

O mediatismo da pandemia bateu todos os recordes à escala planetária e, embora possa haver casos mais infelizes dos conteúdos informativos, há que reconhecer a brutal capacidade de difusão das principais mensagens preventivas, em particular, quanto às associadas à higiene individual e à etiqueta respiratória.

Falta perceber se este esforço vai perdurar, ou se vai pelo desperdício como aconteceu já antes com outras crises virais de maior dimensão – lembremos as gripes sazonais ou a gripe A, por exemplo.

A memória é também uma condenação.

E lembrei-me a propósito deste pânico que até calou oposições como nunca e arrumou os “chatérrimos” serões a moer tricas e penaltis roubados, como deixou de se falar abundantemente sobre a eutanásia.

Curiosamente, o pedido para morrer, o direito a morrer ou a assistência à morte, antes tão candente e necessária, “morreu”, talvez esmagado por tantas mortes em tão pouco tempo!

Passamos dessa discussão – da eutanásia – e do direito de objecção de consciência dos médicos, à contagem diária dos doentes em cuidados intensivos, ao aplauso e às homenagens aos médicos e, genérica e merecidamente a quantos trabalham e sofrem na prestação de cuidados de saúde no SNS.

O foco das preocupações, justas e constantes, por exemplo em torno da falta de uma rede de cuidados paliativos, como têm outros países que aprovaram a morte medicamente assistida, então tão indispensável e urgente foi esquecida e o momento passou a ser dos ventiladores. Acredito que venha a ser a palavra do ano de 2020 pelo bicho de 2019.

No entanto o país ainda não percebeu quantos ventiladores estão no SNS, quantos são necessários para pandemias como esta, quantos podem ser de facto instalados e operacionais em função dos profissionais habilitados a lidar com esses equipamentos e quantos irão chegar da China, das compras da SPMS, das doações de milhentas iniciativas…

Ao mesmo tempo, ao longo de semanas fomos assistindo às mais comoventes homenagens prestadas aos profissionais do SNS, apoiadas e acompanhadas por hotéis que cedem quartos, restaurantes que servem refeições, pessoas que das janelas batem palmas, de forças de segurança que assumem celebração do pessoal do SNS e também eles merecedores das maiores homenagens e respeito, e um sem fim de recompensantes sinais de reconhecimento e gratidão popular.

Mas ainda não ouvi e não sei se algum dos colegas profissionais do SNS antes agredidos identificou algum sinal de arrependimento pelas acções violentas perpetradas por utentes e cidadãos. Bem sei que há o dever de perdoar, mas pelo menos em tantas conferências de imprensa com governantes da saúde, uma palavra pedagógica e de reflexão para o futuro deveria ter sido assinalada e sublinhada, além de poder ter sido diferente e sentida.

Uma sociedade violenta, qualquer que seja a dimensão dessa violência, deve traduzir certamente patologia intrínseca, quando não é provocada. O país começou 2020 numa espiral enlouquecida que incitava a um crescendo que atingiu enfermeiros, médicos, administrativos, agentes policiais, professores, alunos e juízes.

Veio o vírus e o país mudou, parou e calou, encolheu até o 25 de Abril.

Vai ficar melhor? Em que sentido? Por quanto tempo? Esquecendo que não há mais desgraças e ameaças? Inventando questões falsas e idiotas para quê?

Os mais de mil mortos já atribuídos ao COVID-19 mereciam outro respeito e homenagem.

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Depois de três meses de confinamento é necessário aceitarmos a prudência de DES”confinar sem DISconfinar. Não vamos querer “morrer na praia”! As aprendizagens da pandemia Covid-19 são uma ótima oportunidade para acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho. O estado de emergência e o estado de calamidade ensinaram-nos muito! É necessário desconfinar o centro de saúde com uma nova visão e reinventar o conceito com unidades de saúde aprendentes e inovadoras.

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