The day after – Pensar o SNS, depois da pandemia

“O preço de uma qualquer coisa é a quantidade de vida que se troca por isso”, Henry David Thoreau

Muito tem sido dito e escrito sobre a crise provocada pelo novo coronavírus, especialmente sobre o stress que a sua elevada contagiosidade e o número elevado de dias que os doentes graves precisam em cuidados intensivos impõem ao Serviço Nacional de Saúde (SNS).

Escrevo este texto por entre a minha atividade como médico de família (MF) numa área dedicada à Covid-19 em cuidados de saúde primários (CSP) e na medicina hospitalar enquanto responsável por um serviço de internamento com doentes infetados com Covid-19 e por uma unidade da Rede de Cuidados Continuados. O conhecimento de dois lados deste imenso mundo novo, quase distópico, tem permitido pensar e discutir com muitos profissionais que estão na linha da frente desta crise qual será o futuro que nos espera depois de dobrarmos este cabo de tormentas.

Não se pretende neste artigo discutir “o agora”, uma vez que o verdadeiro balanço desta crise e da nossa resposta enquanto sociedade só poderá ser feito quando atingirmos uma fase de diminuição marcada da mortalidade e do número de doentes graves internados.

Pretende-se sim, pensar como será o dia seguinte para todos os que constroem o SNS quando "tudo isto passar". Pensar como estará o SNS e os seus profissionais no dia em que acordarmos e esta crise tiver terminado, como será o “day after” COVID-19.

Parece-me haver alguns pontos fundamentais que merecem ser pensados:

  1. Os profissionais no pós-COVID, nomeadamente os aspetos físicos e psicológicos relevantes para a sua condição humana e de prestador de cuidados;
  2. As instituições do SNS e a sua sustentabilidade no pós-crise, nomeadamente os recursos as instituições do SNS e a sua sustentabilidade no pós-crise, disponíveis para atender a todas as outras patologias e a reorganização necessária para se preparar uma eventual segunda vaga da pandemia;
  3. O SNS para além da saúde, isto é, o papel das autarquias na gestão de crise e na criação de planos locais de saúde que respondam às necessidades individuais de cada população.

Os profissionais de saúde no pós-Covid

  Não temos memória na medicina moderna de um problema de saúde que exigisse tanto e em tão pouco tempo de todos os envolvidos na prestação de cuidados de saúde, principalmente no SNS.

  Esta problemática pessoal e profissional deve ser ativamente pensada já para podermos prevenir as ondas de choque deste sismo. Será então fundamental pensar em três aspetos:

a) A saúde física: Inevitavelmente, haverá um número importante de profissionais infetados ao longo desta pandemia. Destes, uma parte ficará com sequelas da doença que têm de ser tratadas e acompanhadas pelo SNS. Poderá haver necessidade de atribuir novas funções àqueles que ficarem temporariamente ou permanentemente com algum grau de incapacidade decorrente da Covid-19. Este processo tem de ser altamente respeitador da dignidade dos profissionais e tem de refletir o respeito que teremos de ter por todos os que lutaram nesta pandemia.

b) A saúde mental: É importantíssimo agilizar um estudo de burnout e de ansiedade em todos os profissionais, mas principalmente naqueles que estão na linha da frente. É expetável que haja altos níveis de ansiedade no pós-COVID que terão de ser tidos em conta quando for altura de retomar a atividade normal do SNS. Será de ponderar instituir já o acompanhamento psicológico de todos os profissionais que estão na primeira linha para tentar minorar a progressão de toda esta patologia. No “day after” este acompanhamento será mandatório.

c) A reorganização da atividade médica: Uma das coisas que aprendemos com esta pandemia é que conseguimos fazer muito pelos nossos doentes, mesmo à distância. Torna-se imprescindível implementar mecanismos de telemedicina que permitem acompanhar os doentes à distância. Esta estratégia deve ser acompanhada por métricas facilmente mensuráveis que permitam aferir a qualidade deste acompanhamento. Desta forma, poderemos retirar muitos doentes das instituições e ficar muito mais preparados para uma próxima pandemia.

As instituições do SNS e a sua sustentabilidade no pós-crise

Raul M Pereira Equipa 002

Esta pandemia mostra o quanto é imprescindível ter um SNS forte. No que diz respeito à sua estrutura macro há dois pontos a preparar para o pós-crise.

 1. Necessidade de articulação micro e macro entre as instituições: Haverá instituições que, por terem sido mais fustigadas ao longo desta pandemia, terão mais dificuldade em retomar a sua atividade normal, seja pelo aumento de listas de espera, por terem profissionais ausentes ou mesmo pelo receio dos doentes em voltarem às instituições. Neste contexto, a articulação entre instituições (e eventualmente com outros parceiros do sector privado e social) terá se ser muito estreita, de forma a permitir fazer um reset ao sistema e responder a todas as solicitações dos doentes que ficaram em suspenso ao longo da crise. Só com uma estratégia forte neste ponto poderemos impedir uma subida marcada de morbilidade e mortalidade mantendo um SNS sustentável e forte.

 2. Reforçar o papel dos CSP como grandes conhecedores da comunidade: O papel dos CSP na resposta ao pós-crise é, talvez, o mais determinante dos índices de saúde que iremos ter nos próximos anos. É absolutamente necessária uma resposta musculada no acompanhamento à pessoa frágil e com patologia crónica.

Esta resposta, embora deva estar inserida numa estratégia nacional, terá de ser implementada com respeito pelas particularidades de cada população. A abordagem “one size fits all” terá de ser abandonada e teremos de pensar nos CSP como alta costura, feita à medida de cada população. Só assim poderemos maximizar a eficácia dos recursos disponíveis e diminuir a morbilidade e mortalidade, principalmente nos grupos de risco.

 O SNS para além da Saúde  

 As diferentes respostas locais a esta crise demonstram bem as múltiplas abordagens que as entidades envolvidas (câmaras municipais, juntas de freguesia, sector social) podem ter perante uma crise na saúde. No pós-Covid esta experiência deverá ser ampliada para dar resposta a necessidades que já se sentiam e outras que são decorrentes desta crise. Assim, há dois pontos a considerar para o dia seguinte à pandemia.

 1. Criação de projetos piloto de interação dos CSP e cuidados hospitalares com as autarquias: A resposta às necessidades de uma população fragilizada no pós-pandemia só poderá ser feita eficazmente com a partilha de recursos e com respostas integradas. Esta eficácia será, seguramente, atingida com maior rapidez se os planos de saúde locais forem elaborados e implementados em conjunto com todos os intervenientes – autarquias, sector social e saúde.

 2. Criação de mecanismos de resposta rápida em crise: Tendo em conta a realidade de cada população deveremos preparar rapidamente mecanismos articulados de resposta a futuras crises, principalmente para as populações mais frágeis. Neste contexto, o papel das autarquias e sector social deverá integrar a resposta do SNS, funcionando com um bloco sólido de proteção aos mais necessitados. No dia seguinte à Covid-19, a integração dos cuidados de saúde e da medicina preventiva tem de ser exponenciada. A única forma de consolidar o SNS é tendo-o como um parceiro de todos os outros atores, permitindo cuidados integrados, mas acima de tudo preventivos, de alta qualidade. Teremos de olhar para o SNS como um hub que concentra e descentraliza ao mesmo tempo sendo fluído na sua abordagem em função das necessidades de cada população, em tempo real.

Estamos a mostrar a nossa força ao longo desta pandemia. Seguramente, o faremos ainda mais no “day after”.

Por agora, está na hora de voltar aos doentes, nos CSP e no hospital.

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