Ser médico de família em tempo de pandemia
DATA
03/06/2020 16:56:51
AUTOR
Ana Isabel Machado Peixoto
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Ser médico de família em tempo de pandemia

O médico de família (MF) é um médico pessoal que presta cuidados abrangentes, de forma longitudinal, que acompanha a pessoa em toda a sua envolvente: familiar, comunitária e cultural. Foi desta complexidade desafiadora que surgiu a opção de vida da interna: ser “médica de família”.

A pandemia atual pelo novo coronavírus trouxe desafios significativos à atividade assistencial dos médicos de família. Como interna de formação específica em Medicina Geral e Familiar (MGF) nunca tinha antecipado que pudesse vivenciar um período tão diferente na especialidade. 

As mudanças organizacionais foram evidentes. Criaram-se espaços físicos dedicados ao atendimento dos utentes suspeitos de Covid-19. Começar a trabalhar nestas unidades foi, pelo menos no início, gerador de muito stress. É um mundo novo para nós! Teve de se criar tudo de novo, incrementar novas práticas. Foram criados circuitos para o utente, tivemos de passar a usar equipamento de proteção individual que até então nunca havíamos usado na nossa atividade normal. Passou-se de uma era em que algumas unidades de saúde familiar (USF) foram notícia pelos médicos não usarem bata para outra em que os médicos estão equipados de tal forma que nenhum utente nos reconhece. Parece que o MF deixou de ser aquele médico pessoal de outrora. 

A nossa atividade assistencial normal foi reduzida para “Serviços Mínimos” que corresponde ao acompanhamento de grupos vulneráveis como grávidas e crianças, vacinação, doentes crónicos descompensados, contraceção e tratamentos. Os restantes utentes passaram a ser acompanhados por telefone, à distância do seu médico e, muitas vezes devido à reorganização dos serviços, as suas chamadas são atendidas por outro médico da equipa que não o “seu” MF. Entre estas chamadas já tenho ouvido alguns desabafos de sentimento de abandono, de desamparo, apesar de todos os esforços que têm sido desenvolvidos para responder às necessidades da população. 

Tal como em outras situações da nossa vida profissional, também nesta a tecnologia se introduziu sobremaneira. Foi criada uma nova plataforma de seguimento de doentes, que em poucos dias tivemos de aprender o seu funcionamento para tirar o melhor partido da mesma no seguimento dos nossos utentes. Voltamos a utilizar (ou utilizámos pela primeira vez, como no meu caso) outras plataformas que já existiam. Partilhamos informação entre nós (médicos), bem como estratégias para melhorar o rendimento e tudo feito em tempo recorde. Foram também criadas linhas de atendimento telefónicas específicas para atendimento de doentes com sintomas suspeitos de Covid-19, muito úteis nesta pandemia impedindo que os doentes saiam do domicílio para procura de ajuda médica. 

É inerente à atividade do MF o trabalho em equipa de saúde familiar. Não é desconhecido que a exigência do trabalho atual trouxe desafios para as equipas. Adicionalmente, a informação está a ser gerada ao mesmo tempo que a pandemia decorre, pelo que quase diariamente temos alterações nas nossas orientações. É certo que isto traz “tensões” para o seio da equipa. Mas, é muito importante mantermo-nos coesos e fortes, para prestarmos os melhores cuidados aos nossos utentes, agora e também depois desta pandemia. 

A MGF tem uma prática orientada para os cuidados de saúde primários, prestando cuidados abrangentes e longitudinais ao indivíduo, no contexto das suas famílias, comunidades e culturas. Nestes quatro anos de formação, nunca o contexto comunitário foi tão visível na nossa prática clínica diária. 

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Editorial | Rui Nogueira, Médico de Família e presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar
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Depois de três meses de confinamento é necessário aceitarmos a prudência de DES”confinar sem DISconfinar. Não vamos querer “morrer na praia”! As aprendizagens da pandemia Covid-19 são uma ótima oportunidade para acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho. O estado de emergência e o estado de calamidade ensinaram-nos muito! É necessário desconfinar o centro de saúde com uma nova visão e reinventar o conceito com unidades de saúde aprendentes e inovadoras.

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