Há vida para além da Covid-19
DATA
03/06/2020 18:19:37
AUTOR
Rui Portugal
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Há vida para além da Covid-19

Tenho que os serviços de Saúde Pública durante esta crise epidémica foram aparentemente muito considerados. Mas, de facto, pouco ou nada recebemos. As Unidades de Saúde Pública estão (escrevo no final de abril) a serem os verdadeiros combatentes do controlo da pandemia no nosso país. Não tenhamos dúvida que o acompanhamento dos casos e dos contactos, agora também com a participação da Medicina Geral e Familiar (MGF) e residualmente por alguns hospitais, é a medida mais relevante para que possamos quebrar a cadeia de transmissão do SARS-CoV-2. Este incontornável serviço é realizado pelas Unidades de Saúde Pública e agora bem visível para quem andou distraído sobre prevenção da doença e proteção da saúde.

Nada de excecional em relação à missão, função e atividade das Unidades de Saúde Pública. Todos os dias são registados no SINAVE casos confirmados de uma ou outra forma de doenças transmissíveis que requerem a realização de inquéritos epidemiológicos permitindo, entre outras questões, identificar – se possível – contactos com doentes e estabelecer as medidas de tratamento e contenção de doença. Uma e outra vez também visíveis, nomeadamente nas intervenções na Doença dos Legionários. Realce-se o papel importantíssimo dos nossos colegas clínicos no diagnóstico e no alerta.

Nestes momentos de maior visibilidade, um ou outro fica sensibilizado sobre o impacto dos serviços de Saúde Pública que normalmente pautam por ter parcos recursos em termos de quantidade de profissionais, deva-se dizer, para não falar na paupérrima equipagem destas equipas em termos de instalações, meios informáticos e sistemas de informação. Tudo está preparado para melhor servir os serviços de tratamento e reabilitação e muito pouco é disponibilizado para o planeamento e a prevenção. Pena seja que quando falamos em planeamento e controlo das doenças não transmissíveis e/ou crónicas, aqui d´el-rei que, já os nossos colegas das diferentes especialidades passam a dominar a linguagem e técnica da Saúde Pública para gerir os programas das mesmas. Se de facto dominarem essa linguagem e técnica assumo que todos podemos ser agentes de Saúde Pública. Mas, o que é verdade é que se os colegas de Saúde Pública tendem a ser comedidos nas afirmações técnicas e muito menos nas opiniões de matérias das diferentes especialidades médicas, já o mesmo não se passa sobre a ciência da nossa especialidade. Isso é, mais do que óbvio, na pletora de especialistas de Saúde Pública e de epidemiologistas – particularmente em epidemiologia de campo (surtos) – que despontaram nos tempos mais recentes e que estavam escondidos por cá e por lá fora.

Os médicos de Saúde Pública têm um treino específico de quatro anos, um dos quais em sala de aula em curso de pós-graduação em Saúde Pública, em que matérias de administração de saúde e em epidemiologia (nas suas diferentes variantes) são intensamente abordadas e exercitadas. Os médicos de Saúde Pública não têm um ano de pós-graduação em Saúde Pública apenas, como não têm uma semana de treino clínico na sua formação. Dominam estas matérias como ninguém no país, mesmo aos que dissertam para diferentes graus académicos em Saúde Pública. Temos uma visão holística da saúde, mesmo que por vezes não aparenta. Estamos preparados e a nova geração está melhor preparada para enfrentar os desafios das atuais e novas epidemias, da gestão dos programas de saúde, de criar estratégias de melhorar a eficiência da prestação de cuidados de saúde, da saúde em meio ocupacional, na escola e no ambiente. Sabemos trabalhar em equipas, os nossos parceiros de outras profissões da área da saúde têm fortes competências em áreas de intervenção comunitária e em saúde ambiental. Podem e devem fazer mais e ter mais autonomia.

Estamos em unidades sem autonomia, não estamos como deveríamos estar, nos hospitais e a dar apoio a múltiplos decisores, incluindo um quadro técnico no Parlamento.  Temos hoje hierarquias que podem dificultar a plasticidade necessária à organização dos serviços, bem como à articulação e colaboração com as entidades que permitam melhor efetividade nas intervenções. Somos, disso tenho a certeza, o melhor recurso para tornar o sistema de saúde e o Serviço Nacional de Saúde (SNS) mais eficientes e de esperança num melhor futuro.

No tempo que passamos não será difícil de perceber que somos merecedores de reconhecimento nas ações, no respeito pela nossa especificidade e competência e não na apropriação sucessiva do que de melhor temos. Como há mais vida para além da Covid-19 os decisores estão convidados e exigimos mais e melhor investimento nos nossos serviços, serviços que são do interesse de comunidades e das suas instituições. Mais investimento para mais justiça na distribuição de recursos e para mais felicidade.

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Editorial | Rui Nogueira, Médico de Família e presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar
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Depois de três meses de confinamento é necessário aceitarmos a prudência de DES”confinar sem DISconfinar. Não vamos querer “morrer na praia”! As aprendizagens da pandemia Covid-19 são uma ótima oportunidade para acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho. O estado de emergência e o estado de calamidade ensinaram-nos muito! É necessário desconfinar o centro de saúde com uma nova visão e reinventar o conceito com unidades de saúde aprendentes e inovadoras.

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