Gravidez em confinamento: Médica & grávida
DATA
09/06/2020 12:20:56
AUTOR
Tatiana Peralta
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Gravidez em confinamento: Médica & grávida

A gravidez é um processo pessoal, único, de mudanças fisiológicas e emocionais. Sentimentos como incerteza, indefinição, medo e inseguranças pautam a vivência da psique de uma futura mamã.

Mas acrescente…. Some uma situação de pandemia por um vírus nunca antes conhecido. Multiplique pelo estado de emergência. Estamos “à beira de um ataque de nervos”!

Em Portugal, a saúde materno-infantil encontra-se enquadrada numa rede em estreita articulação entre os Cuidados de Saúde Primários e os Cuidados Hospitalares. Este planeamento dos cuidados foram essenciais na redução da morbimortalidade materna e neonatal.1

Com a pandemia SARS-CoV-2 (Covid-19), os protocolos de seguimento sofreram ajustes na tentativa de minimizar o risco de contagio da grávida decorrente dos contactos com recursos de saúde. Foi dada primazia aos contactos efetuados nos Cuidados de Saúde Primários, os cuidados de proximidade, sendo que nestes locais foi privilegiado o contacto à distância, “não presencial”, através das novas tecnologias. Estabelece-se o paradoxo.

O contacto à distância permite manter a vigilância. Mas a segurança que promete, tem um preço a pagar. A perda acontece prejudicando a avaliação clínica (ausência de avaliação do bem estar, da velocidade de crescimento do feto, da avaliação de parâmetros indiretos de instabilidade na gravidez realizados por testes simples, como um Combur). Perde-se também a oportunidade de ministrar atitudes preventivas, nomeadamente a preparação da família para o seu novo papel e a implicação na dinâmica familiar que tanto carateriza a atuação do Médico de Família. Perde-se também tudo aquilo que nem a linguagem verbal nem escrita diz. E que representa suporte, apoio, cooperação, segurança.

Até a preparação para a parentalidade, como os cursos de preparação para o parto, são agora online.

Terá este “novo” protocolo de acompanhamento da gravidez impacto na morbimortalidade materno-infantil?

Sabe-se que “a presença pró-ativa do pai é fundamental ao longo de todas as semanas de gravidez”, nas consultas, no aconselhamento e no parto.1

Este aspeto tem gerado muita controvérsia, sendo que não há nenhuma recomendação formal. A Diretora da Direção Geral da Saúde (DGS) - Dra. Graça Freitas - remete a decisão para as equipas hospitalares, o que condiciona sentimento de revolta, fomenta injustiças e levanta questões de assimetrias geográficas na prestação de cuidados.

A gravidez é assim vivida de forma isolada e distante, não só ao nível social, mas também familiar, muitas vezes nem o pai pode estar por perto. O suporte dos serviços de saúde vão-se resumindo ao mínimo e maioritariamente do lado de lá da linha telefónica. Não são raros os testemunhos de puérperas positivas que foram separadas do recém-nascido, por vezes durante semanas, inclusivamente impedidas de amamentar.

O contacto pele a pele entre a mãe e o recém-nascido tem diversos benefícios não só a nível afectivo mas também adaptação à vida extra-uterina, sucesso do aleitamento materno e reforço proteção do recém-nascido a possíveis infeções. A ligação mãe-bebé e a amamentação tem impacto a longo prazo e pela sua importância tem sido encorajada por vários organizações internacionais e nacionais desde que garantida lavagem correcta das mãos e uso de máscara mesmo em mães infectadas, posição que só recentemente foi partilhada DGS.2-5

O conhecimento nesta temática está em constante crescimento e atualização. Na gravidez, o tempo não volta atrás e estes tempos de indefinição acarretam perdas irrecuperáveis de momentos/oportunidades, tais como vínculo afetivo, suporte emocional.

Será por isso expectável o acréscimo da incidência de patologia mental. Como antecipar e gerir? Esta é agora uma preocupação, também se iniciando investigação nesta área (exemplo do estudo "COVID-19 e Saúde Mental na Gravidez" promovido pelo Centro de Estudos do Bebé e da Criança do Hospital Dona Estefânia)

A gravidez e a parentalidade implicam adaptações sociais, familiares e psicológicas só por si, exacerbadas neste contexto epidemiológico. Os desafios são inúmeros não só para as  grávidas, como para as famílias, mas também para os profissionais de saúde.

Não sabemos quais as repercussões desta nova vivência da gravidez nas gerações futuras. Fazemos parte do conhecimento a todos os níveis, ainda que não tenhamos assinado nenhum consentimento.

Qual o impacto de toda esta realidade num ser humano que passa pelo milagre da parentalidade sozinha, por vezes afastada da cria. Como evoluirá a depressão pós-parto? De que forma toda esta situação influirá nos jovens de amanhã (sem vínculo, com mães mais inseguras, sem o  suporte essencial)?

Referencias bibliográficas

  1. Ministério da Saúde, Direcção-Geral da Saúde. Programa Nacional para a Vigilância da Gravidez de Baixo Risco, novembro de 2015 [Online] acessível em https://www.dgs.pt/em-destaque/programa-nacional-para-a-vigilancia-da-gravidez-de-baixo-risco.aspx
  1. Sociedade Portuguesa de Medicina Interna -Núcleo de Estudos de Medicina Obstétrica. Risco de Infecção pelo COVID-19 em grávidas. 2020 Acessível em https://www.spmi.pt/risco-de-infeccao-pelo-covid-19-em-gravidas/
  1. Stuebe A. Should Infants Be Separated from Mothers with COVID-19? First, Do No Harm. Breastfeed Med. 2020;15(5):351‐352. doi:10.1089/bfm.2020.29153.ams
  1. Zeng L, Xia S, Yuan W, et al. Neonatal Early-Onset Infection With SARS-CoV-2 in 33 Neonates Born to Mothers With COVID-19 in Wuhan, China. JAMA Pediatr. Published online March 26, 2020. doi:10.1001/jamapediatrics.2020.0878
  1. Direcção-Geral da Saúde. COVID-19 Cuidados ao Recém-nascido na Maternidade.- Norma de orientação clínica nº026/2020. 2020. Acessível em https://www.dgs.pt/directrizes-da-dgs/orientacoes-e-circulares-informativas/orientacao-n-0262020-de-19052020-pdf.aspx
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