Consultas por um fio... telefónico

No início de março surgiram os primeiros casos de Covid-19 em Portugal e, desde então, este surto foi evoluindo, culminando na declaração governamental de Estado de Emergência, o que trouxe mudanças significativas na vida de todos os cidadãos. O Serviço Nacional de Saúde (SNS) não ficou de fora desta nova realidade e houve necessidade de uma reestruturação, nomeadamente dos cuidados de saúde primários (CSP), tendo em vista a redução do fluxo de utentes não urgentes nas unidades de saúde, como forma de contenção do surto.

E foi em meados de março que o telefone nunca mais parou de tocar… As consultas presenciais, sempre que possível, foram convertidas em consultas telefónicas. E, de repente, nós, médicos de família (MF), habituados ao contacto próximo e diário com os nossos utentes, ficamos dependentes desta ferramenta tão útil, mas, por outro lado, tão redutora. Algumas consultas, consideradas serviços mínimos, mantiveram-se, nomeadamente as consultas de saúde infantil, saúde materna, situações de doença aguda, doença crónica não controlada, tratamentos inadiáveis, domicílios em função das necessidades e cuidados de contraceção. No entanto, estes representam apenas uma pequena parte da vasta atividade assistencial do MF.

E os doentes crónicos? E os doentes diabéticos, hipertensos, com doenças cardiovasculares ou respiratórias?  E os rastreios oncológicos? Ficam esquecidos? Num virar de página, já não há consultas de vigilância… Tudo o que for possível, devemos tentar resolver por telefone. É verdade que esta nova realidade só tem como objetivo evitar a exposição dos doentes a um risco que poderá ser desnecessário, contudo, fica sempre o sentimento de insegurança. O doente não está à nossa frente, não fazemos o exame objetivo. E se o doente não valoriza algum sintoma? E a comunicação não verbal? Estamos a viver uma pandemia, e é certo que estas adaptações foram as mais acertadas, de forma a conseguirmos proteger os doentes, para que estes possam ficar em casa e em segurança.

No entanto, falta o contacto com o utente, o cumprimento, o olhar nos olhos, falta tudo… Faltam aquelas tantas hipóteses de diagnóstico que fazemos durante o percurso do utente desde a porta até que se senta à nossa frente.

Enquanto interna de Medicina Geral e Familiar (MGF) tenho desempenhado várias funções na Unidade de Saúde Familiar (USF): as consultas previstas nos serviços mínimos mencionados, atendimento telefónico de doentes com doença aguda ou seguimento de problemas pendentes de consultas prévias, esclarecimento de dúvidas relativamente à Covid-19 ou relacionadas com a saúde no geral. Mas, de entre todas, há uma para a qual não estava, de facto, preparada… a triagem na porta de entrada.  A triagem é realizada de forma a identificarmos os doentes que precisam efetivamente de consulta, receber pedidos de medicação, resultados de meios complementares de diagnóstico mais urgentes, orientar os doentes com consulta agendada (incluída nos serviços mencionados), esclarecer dúvidas e, ao mesmo tempo, fazer educação para a saúde. Isto porque, apesar de toda a informação disponibilizada nos meios de comunicação, muitos utentes não percebem a necessidade de ficar em casa e de evitar espaços públicos. Não estava preparada para este tipo de funções… Talvez porque nunca tenha sido expetável que, nos últimos e preciosos meses do meu internato médico, esta fosse a realidade da minha atividade assistencial.  Não é fácil lidar com as pessoas na entrada de um estabelecimento de saúde, sobretudo de máscara e de viseira, que são, desde logo, enormes obstáculos à comunicação. Compreendo que não poderia ser de outra forma. Em tempos de pandemia, tempos únicos na vida de tantos nós, temos de nos adaptar e, sobretudo, trabalhar em equipa.

Apesar do esforço, não posso deixar de confessar que fica o sentimento de dever não cumprido. Os CSP e a medicina de prevenção estão comprometidos. E, a par disso, a medicina de urgência também já reflete uma realidade bem diferente do habitual. Nos últimos meses, diminuíram os episódios de urgência devido a eventos cardiovasculares, tão prevalentes na nossa população e que constituem a principal causa de morte nacional. Para onde foram estes doentes? Não se queixam ou desvalorizam queixas por receio de contágio?

Ainda não sabemos quais serão as repercussões da pandemia. Especula-se um aumento de problemas respiratórios, sequelas da pneumonia por Covid-19. No entanto e, infelizmente, as consequências não serão apenas estas e o impacto será muito mais abrangente, refletido em todas as dimensões da saúde da população: física, psíquica, social, familiar e espiritual.

COVID e não-COVID: Investimentos para resolver novos e velhos problemas
Editorial | Rui Nogueira, Médico de Família e presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar
COVID e não-COVID: Investimentos para resolver novos e velhos problemas

Acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho. O estado de emergência terminou e o estado de calamidade passou, mas o problema de saúde mantem-se ativo. É urgente encontrar uma visão inovadora e adotar uma nova estratégia. As unidades de saúde precisam de encontrar respostas adequadas e seguras.

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