O que eu nunca gostaria de ter escrito… E agora, o pós-Covid…
DATA
17/06/2020 14:54:10
AUTOR
Rui Cernadas, médico de família
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O que eu nunca gostaria de ter escrito… E agora, o pós-Covid…

Que as coisas mudaram significativamente ninguém duvida. Mas, prever o futuro, apostar em qual oráculo ou acreditar em algum vidente é que se tornou difícil.

As medidas adoptadas sobre a contenção e disseminação da Covid-19 implicaram mudanças significativas na forma como os cuidados de saúde são prestados. Mas, se as consultas presenciais podem representar um risco potencial para as partes, um sistema de cuidados à distância e a tele-saúde podem ser alternativas, mas não vão poder ser a única resposta.

A prestação de cuidados de saúde personalizados à distância, ainda que por vias e sistemas diversos, vai criar um acréscimo de responsabilidade no julgamento clínico, pode aumentar a acessibilidade em muitos casos, mas vai ser um desafio e até um prejuízo nesse acesso para os mais carenciados, incluindo os mais velhos, pessoas de condição socioeconómica desfavorecida ou de regiões sem cobertura capaz, e ainda a portadores de deficiências físicas e sensoriais ou de aprendizagem.

Convém ter cuidado porque não se passa do envio de sms a recordar agendamentos de consultas ou adiamentos das mesmas, ou até do envio de códigos de prescrições desmaterializadas, para tudo o resto que envolve a dispensa de cuidados médicos e de avaliação de doentes, justificando atenção à comunicação verbal e não verbal...

Além disso, em muitas áreas do conhecimento médico, as intervenções oferecidas via telemóvel ou controlo remoto – e que poderão ser eficazes – não foram ainda estabelecidas.

Os efeitos sobre as complicações nas doenças crónicas e os custos a jusante, ou o disparo de curvas no campo das doenças oncológicas e outras, nas quais o rastreio e o diagnóstico precoce são fundamentais, assustam-me.

É neste cenário complexo e imprevisível que, também vamos conhecer os impactos do Estatuto do Cuidador Informal, entretanto publicado em Diário da República e com cerca de 30 projectos-piloto para cuidadores residentes em outros tantos concelhos.

Aguardamos agora que os profissionais de referência, quer da Saúde, quer da Segurança Social, possam avançar com os respetivos planos de intervenção e as medidas de acompanhamento, aconselhamento, capacitação e formação desses cuidadores.

Vimos bem como com a recente pandemia são os mais frágeis, os mais velhos, os mais isolados a terem menos chances, nomeadamente quanto à capacidade de sobrevivência. O acesso aos cuidados de saúde sendo fundamental, está longe de esgotar o leque do suporte necessário à sua autonomia e padrão mínimo da qualidade de vida da pessoa cuidada.

O Serviço Nacional de Saúde (SNS) aguentou o choque recente e os seus profissionais voltaram a dar um exemplo de resistência, coragem e resiliencia.

Falta ainda analisar o comportamento do setor privado da saúde neste contexto e perceber o que lhe foi proposto, pedido ou acordado. Mas, nem por isso as Parcerias Público-Privadas (PPP) deixaram de ser um dos temas fortes quando se fala da Saúde. As PPP ficaram de fora da nova Lei de Bases da Saúde para serem legisladas mais tarde.

Mesmo considerando o período de excecionalidade atravessado, convém não ignorar que havia um prazo legal para fazer essa regulamentação, o primeiro trimestre deste ano.

Em que sentido devemos caminhar? O que se pretende de facto, quando argumentos de Tribunal de Contas e outros órgãos de Estado parecem esquecidos?  As PPP na Saúde são para acabar de vez ou é só, como já disse o Primeiro-ministro, não para fazer novas Parcerias, mas para renovar ou redesenhar as que já existem?

Haverá tempo para ser aproveitado, mas não pode haver tempo para ser desperdiçado.

A regulamentação complementar da Lei de Bases da Saúde não pode ficar fechada numa qualquer gaveta. Esperemos que após tantas conferências de imprensa diárias possa haver energia, espaço e interesse para outros temas.

Sobretudo porque agora se tornou moda dizer em jeito de justificação universal, que para situações extraordinárias há que encontrar soluções extraordinárias.

O novo normal e a nova realidade – que alterações provocadas pela pandemia vieram para ficar?
Editorial | Jornal Médico
O novo normal e a nova realidade – que alterações provocadas pela pandemia vieram para ficar?
Acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho. Encontrar uma nova visão e adotar uma nova estratégia útil na nossa prática clínica quotidiana. Valorizar as unidades de saúde por estarem a dar as respostas adequadas e seguras é o mínimo que se exige, mas é urgente e inevitável um plano de investimento nos centros de saúde do Serviço Nacional de Saúde.

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