Senhor doutor, não acha melhor fazer um exame?

A Medicina é, sem dúvida, uma arte em constante desenvolvimento. Cada vez mais surgem técnicas e tratamentos inovadores que nos permitem a gestão e mesmo a cura de patologias outrora devastadoras. No entanto, à medida que este progresso ocorre, verifica-se igualmente uma tendência, cada vez mais evidente nos dias que correm, de associar a qualidade dos cuidados médicos à prescrição de métodos complementares de diagnóstico. Será o melhor médico aquele que prescreve mais exames?

Uma parte fulcral da consulta de um Médico de Família é a gestão das expectativas do utente que se encontra à nossa frente. E como gerir essas mesmas expectativas no que toca aos tão desejados “exames”? Como explicar que numa omalgia de novo sem critérios de gravidade, o primeiro passo não é a realização de uma ecografia do ombro, mas sim o tratamento conservador? Ou que num jovem sem antecedentes e sem queixas, as ditas “análises de rotina” não são recomendadas? Ou que nessas mesmas análises de rotina, o pedido de marcadores tumorais, para além de não ter indicação, pode mesmo ser deletério? Estas são situações cada vez mais frequentes na consulta e que podem fragilizar a relação médico-doente.

E não querendo correr o risco de ser mal interpretada, os métodos complementares de diagnóstico são essenciais à nossa prática clínica e sem eles o nosso trabalho estaria francamente dificultado. Tal não invalida o facto de que, e especificando para os Cuidados de Saúde Primários, muitas das situações que nos surgem no dia-a-dia possam ser orientadas “apenas” com recurso a uma história clínica e a um exame objetivo detalhados. No entanto, torna-se cada vez mais frequente, os utentes considerarem esta estratégia como sendo “insuficiente”, seguindo-se a típica questão “mas senhor doutor, não acha melhor fazer um exame?”. Num mundo em que as fontes de informação se multiplicam e são acessíveis à maioria da população, a desinformação é também uma realidade crescente. Os utentes chegam-nos com ideias pré-concebidas acerca de como a sua situação deve ser gerida e faz parte das nossas funções sermos capazes de desmistificar muitas destas ideias. E como interna do 2º ano de Medicina Geral e Familiar, sei em primeira mão o quão complicada esta tarefa pode ser.

Também é importante analisarmos a situação de outra perspetiva. Estaremos nós, médicos, a contribuir para perpetuar esta ideia errada de que qualidade em medicina se correlaciona com quantidade de exames feitos? Vejamos o caso dos serviços de urgência. Não é assim tão incomum que um utente opte por se dirigir diretamente ao serviço de urgência hospitalar, em vez de à consulta aberta do seu centro de saúde, por saber que a probabilidade de realizar um estudo analítico, um raio-x, uma ecografia, é muito superior a este nível. Numa era em que cada vez mais nos vimos forçados a praticar uma medicina defensiva, estaremos a perder confiança na nossa anamnese?

Nenhuma destas questões tem uma resposta simples, nem nenhuma situação uma solução óbvia e linear. Resta-nos fazer aquilo a que nos propusemos, exercer esta profissão com consciência e dignidade, procurando sempre o melhor para o nosso doente, o que pode mesmo significar dizer “não”.

O novo normal e a nova realidade – que alterações provocadas pela pandemia vieram para ficar?
Editorial | Jornal Médico
O novo normal e a nova realidade – que alterações provocadas pela pandemia vieram para ficar?
Acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho. Encontrar uma nova visão e adotar uma nova estratégia útil na nossa prática clínica quotidiana. Valorizar as unidades de saúde por estarem a dar as respostas adequadas e seguras é o mínimo que se exige, mas é urgente e inevitável um plano de investimento nos centros de saúde do Serviço Nacional de Saúde.

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