A Pandemia COVID-19 pelo olhar de uma interna de MGF
DATA
26/06/2020 09:28:06
AUTOR
Ana Raquel Machado
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A Pandemia COVID-19 pelo olhar de uma interna de MGF

A Medicina Geral e Familiar (MGF) é-nos apresentada como uma disciplina académica e científica, com os seus próprios conteúdos educacionais, investigação, base de evidência e atividade clínica. Caracterizada por proximidade, acessibilidade, disponibilidade e abrangência.

Como interna de 4.º ano de formação específica de MGF, o que me move e me identifica como médica de família é a prestação de cuidados ao doente de forma próxima, inserido no seu contexto familiar e respetiva comunidade. Somos o primeiro elo do serviço nacional de saúde, aqueles que recebem, à porta do seu gabinete com um aperto de mão, o casal que está a planear engravidar, os seus pais na vigilância de rotina da consulta de hipertensão ou diabetes, o recém-nascido e os pais com as suas dúvidas e inquietações, o adolescente com a sua ânsia pelo desconhecido e pelas novas experiências, o idoso que procura muitas vezes o tratamento não só farmacológico, mas a companhia, o apoio, a disponibilidade nos breves minutos da consulta.

A 11 de março de 2020 foi declarada pela Organização Mundial de Saúde pandemia de coronavírus por COVID-19. A 13 de março de 2020 os serviços de cuidados primários em Portugal foram obrigados a reestruturar-se e entram em plano de emergência. A porta facilmente aberta ao doente, deixou de o estar. As equipas foram desagregadas de forma a darem resposta aos serviços mínimos e a garantirem o atendimento ao maior número de doentes, evitando ausência de muitos profissionais por motivo de doença. Os corredores e as salas de espera estão vazios; os telefones não param de tocar. São menos horas presenciais na Unidade de Saúde Familiar (USF), mas deixou de haver hora de entrada e saída, fins-de-semana e feriados. Os telefones tocam. OS doentes infetados com sintomas ligeiros, em vigilância sobreativa são vigiados telefonicamente diariamente.

A 15 de maio de 2020 os serviços na USF são alargados, mantemos 50% de atividade presencial e 50% de teleconsulta. Mantêm-se os serviços mínimos, acrescem-se os cuidados para com os doentes crónicos, e esperamos dar resposta à patologia grave que pode estar escondida nesta pandemia. As horas na USF são dividas entre consultas presenciais de saúde materna, saúde infantil, planeamento familiar, consulta aberta, triagem telefónica de consulta urgente e teleconsulta ou agendamento de doentes crónicos, nomeadamente hipertensos e diabéticos, de forma a garantir a segurança para todos. Há turnos atribuídos ao atendimento na ADC-comunidade. A par disso o teletrabalho com seguimento dos doentes COVID-19, com registos no TraceCovid e no SINAVE continuam em casa. Já ultrapassando todas essas horas, estão tantas outras para a leitura de todas as normas, orientações e artigos que vão invadindo o email, têm de ser lidas de forma consciente e com senso clínico, de forma a atualizar a nossa prática, muitas vezes tornando o que ontem era verdade em mentira.

Estou ciente de que muito do que aqui escrevo é “trabalho invisível” para muitos, mas é certamente aquilo que mantém o controlo desta pandemia e dos serviços de saúde.

É junho, estamos a meio do ano, e no meio de tanta mudança, sou interna no final da especialidade, há um relatório para fazer, estudo da consulta e curriculum para escrever. Somos apanhados no meio da avalanche e a bola não pára de rolar. Somos médicos com responsabilidades diárias, com o acréscimo de uma formação exigente, e por vezes esgotante. Chegamos ao final do dia e a força para investir para além das múltiplas tarefas já referidas já é escassa, e são muitas as perguntas.

Questiono-me neste momento, o que me move e moverá tantos médicos internos de MGF? Claramente a plena consciência que dou o meu melhor em prol do meu doente, tentando fazer da distância a maior proximidade. A risada na chamada telefónica o alento para que tudo fique bem e na próxima marcação de consulta eu o possa receber à porta do gabinete com a mão estendida. Quanto ao término da especialidade, também será realizado, com a certeza que em primeiro lugar teve aquilo que sempre me moveu nesta profissão, o melhor cuidado ao utente e ao doente inserido na sua família e na sua comunidade, baseado no conhecimento e prática clínica mais atualizados, a “curriculite” vale o que vale.

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Editorial | Rui Nogueira, Médico de Família e presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar
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Depois de três meses de confinamento é necessário aceitarmos a prudência de DES”confinar sem DISconfinar. Não vamos querer “morrer na praia”! As aprendizagens da pandemia Covid-19 são uma ótima oportunidade para acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho. O estado de emergência e o estado de calamidade ensinaram-nos muito! É necessário desconfinar o centro de saúde com uma nova visão e reinventar o conceito com unidades de saúde aprendentes e inovadoras.

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