Informar sem impressionar: a comunicação do risco em contexto epidémico

A comunicação do risco é da maior relevância para a prática da Saúde Pública. A veiculação de comportamentos e atitudes redutores do risco, em especial em contexto de epidemias por doenças de transmissão interpessoal, não só contribui para a sua gestão apropriada, como controla a sobrestimação do risco classicamente associada a este tipo de fenómenos.

A comunicação do risco no decurso de um surto ou de uma epidemia instalada é, de acordo com a OMS, equiparável à “expertise” em epidemiologia de intervenção ou ao apoio laboratorial. Trata-se de uma das operações essenciais dos serviços de saúde pública da OMS Europa (EPHO9).

Comunicar o risco em saúde pública, de forma efetiva, é proteger e promover a saúde da população e prevenir a doença. Consiste, na prática, na prescrição de comportamentos a uma escala comunitária ou populacional - i.e., “sem rosto”, mas necessariamente ajustada, em termos de forma e de conteúdo, ao público-alvo.

Implica, além de competências em comunicação com a comunicação social, a imprescindível competência científica; esta última, além de assegurar a validade da informação, concorre para a sua credibilidade/credibilização.

É fundamental comunicar bem, da forma correta e a quem (nos) interessa à gestão do problema ou da situação. Falar muito não é falar bem; e falar daquilo que não se sabe é particularmente grave, além de ética e deontologicamente condenável.

Assistimos, no decurso da presente pandemia de COVID-19, a uma pandemia de “peritos” na área da Saúde Pública/epidemiologia das doenças infeciosas. A maioria dos quais verdadeiros peritos, só que em áreas ou setores muito dificilmente relacionados…. É a natureza humana a falar mais alto, perante a necessidade vital de protagonismo individual, numa sociedade em que é possível estar só no meio de uma multidão…

Houve, mesmo, lugar à emergência de um neologismo: “infodemia” (“infodemic”), entendida como “pandemia de desinformação”. E como o conhecimento humano é organizado em disciplinas, já se fala na correspondente “infodemiologia”.

Combater a desinformação, independentemente do contexto de saúde, é promover a saúde e o bem-estar das populações. É concorrer para a eficiência na alocação dos recursos e para a efetividade da resposta (controlo do problema de saúde), numa batalha de todos e para o bem de todos.

Evitemos, assim, palpites, por mais bem intencionados que sejam, inferências abusivas ou terminologias incorretas ou pouco precisas. Abstenhamo-nos de opinar, quais “treinadores de sofá”, sobre assuntos que não dominamos ou, relativamente aos quais, não somos possuidores da necessária legitimidade científico-institucional.

Mas evitemos, igualmente, comunicar erudição, necessariamente dissociada do dia-a-dia da proteção da saúde, dos serviços públicos competentes (serviços de saúde pública) e dos seus profissionais. Ou seja, impressionar em vez de informar, numa tentativa de ganhar protagonismo pessoal ou institucional.

Contribuamos, antes, para uma sociedade do conhecimento, assente numa informação objetiva e objetivável, que tem nos órgãos de comunicação social, mais do que parceiros fundamentais, aliados imprescindíveis.

O novo normal e a nova realidade – que alterações provocadas pela pandemia vieram para ficar?
Editorial | Jornal Médico
O novo normal e a nova realidade – que alterações provocadas pela pandemia vieram para ficar?
Acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho. Encontrar uma nova visão e adotar uma nova estratégia útil na nossa prática clínica quotidiana. Valorizar as unidades de saúde por estarem a dar as respostas adequadas e seguras é o mínimo que se exige, mas é urgente e inevitável um plano de investimento nos centros de saúde do Serviço Nacional de Saúde.

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