Para os que “Covid” não significa um antes e um depois
DATA
07/07/2020 09:32:43
AUTOR
Cláudia G. Coelho e Natalie das Neves
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Para os que “Covid” não significa um antes e um depois

As visitas domiciliárias são uma tipologia de consulta que existe há vários anos nos cuidados de saúde primários e destinam-se a doentes dependentes, cuja situação necessita de intervenção no domicílio. Nelas, pretende-se a promoção da saúde e a prevenção da doença. A equipa médica, centra-se, ainda, em prestar cuidados no âmbito da doença aguda mas, também, no acompanhamento de múltiplas doenças crónicas. Estas consultas domiciliárias, dado a recente situação epidemiológica mundial, viram-se drasticamente diminuídas, ficando muitos dos seus principais beneficiários privados dos seus benefícios.

Durante a pandemia causada pelo novo Coronavírus, a nossa população viu-se obrigada a integrar conceitos como “distanciamento social” ou “quarentena no domicilio”. A frase “fique em casa” multiplicou-se por todas as ações de sensibilização e promoção para a saúde, que decorreram durante o pico da referida pandemia no nosso país. Eram inúmeros os casos de doentes que cumpriam isolamento nos seus domicílios.

O contacto telefónico com os profissionais de saúde era, para muitos, o único contacto social que mantinham ao longo do dia. Era, nestes casos, muito agradecido por parte dos utentes já que servia para acompanhar sinais e sintomas, mas também para esclarecer dúvidas e manter uma conversação durante alguns minutos, afastando um pouco a solidão. Em outros casos, era um telefonema de rotina, obrigatório e aborrecido, que apenas servia para os utentes exporem inúmeras queixas e para quase “exigirem” aos vários elementos dos serviços de saúde que tornassem todos os procedimentos de diagnóstico e confirmação de cura mais céleres, manifestando, simultaneamente, descontentamento com esta permanência obrigatória no domicílio, que os privava de contacto com o exterior.

Este contacto telefónico permanente com quem estava em casa isolado pela nova situação epidemiológica recorda um grupo diferente e tantas vezes esquecido pela sociedade. Falamos dos doentes dependentes. Encontram-se nesta situação por incontáveis razões que os priva de contacto com o exterior, confinados, muitos deles, a uma cama em vez de a uma divisão. Mantêm escassa ou nenhuma interação social, sendo o isolamento social por tempo indefinido. São estes, por definição, os principais utilizadores da tipologia de consultas inicialmente referidas.

As visitas domiciliárias representam, praticamente, a única forma de contacto com os cuidados de saúde primários. Sendo os objetivos principais a promoção da saúde e a prevenção da doença, torna-se fundamental apurar o grau de solidão destes doentes e identificar condições como a ansiedade ou depressão, e não apenas valorizar e tratar queixas orgânicas. Encontrar e tratar a ansiedade e a depressão, é de vital importância para a saúde deste grupo, uma vez que a situação de base que leva ao seu aparecimento ou exacerbação é de carácter duradouro.

A ansiedade e a depressão eram também sintomas frequentes em quem estava confinado pelo novo vírus, surgindo após poucos dias ou semanas apelos para estratégias de gestão destes sintomas. Neste contexto, referimo-nos a doentes que sabiam que este período mais difícil tinha datas de início e de fim. Situação bastante diferente dos doentes dependentes onde, na grande maioria das situações, é apenas possível identificar uma data de início, sem fim previsível, ou até mesmo possível. Dado isto, mostra-se imperiosa a busca ativa destes sintomas neste grupo mais vulnerável. É necessário apurar o que os afeta, numa perspetiva de prevenção na saúde mental.

O isolamento social durante esta pandemia por COVID-19, alertou-nos a muitos, recordou-nos a outros, da fragilidade da saúde mental de muitos dos utentes nos cuidados de saúde primários.

Numa altura em que vemos a profissão médica mutada, com realização de atividades não habituais à prática diária, é de vital importância refletir nos objetivos inerentes a cada ato. É importante não esquecer o doente dependente que está em casa e que ficou sem as visitas do seu médico de família. É também importante nos doentes em isolamento mais efémero valorizar as queixas de saúde mental, de modo a impedir o seu agravamento. Devemos procurar, em ambos os casos, não esquecer uma avaliação holística e “reinventarmos” a nossa prática clínica diária, buscando novos meios para fazer chegar a ajuda a quem mais dela precisa.

Seja uma visita domiciliária telefónica ou presencial, ou com recurso às novas tecnologias, devemos sempre procurar ativamente a doença e promover a saúde, tendo em conta as necessidades e condicionante de cada grupo de utentes, pertencentes à vasta “galáxia” que integram os cuidados de saúde primários.

COVID e não-COVID: Investimentos para resolver novos e velhos problemas
Editorial | Rui Nogueira, Médico de Família e presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar
COVID e não-COVID: Investimentos para resolver novos e velhos problemas

Acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho. O estado de emergência terminou e o estado de calamidade passou, mas o problema de saúde mantem-se ativo. É urgente encontrar uma visão inovadora e adotar uma nova estratégia. As unidades de saúde precisam de encontrar respostas adequadas e seguras.

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