"O melhor que podemos fazer em prol dos nossos doentes é estarmos atualizados"
DATA
10/07/2020 09:52:25
AUTOR
Filipe Fontes Alves
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"O melhor que podemos fazer em prol dos nossos doentes é estarmos atualizados"

1 Escolhi fazer estágio de dermatologia pouco depois de ter a minha primeira referenciação à especialidade recusada. Como muitos internos de Medicina Geral e Familiar (MGF) pretendi estudar com mais atenção esta área, para treinar os meus olhos e expandir as minhas escolhas terapêuticas, ganhar mais autonomia e ter que abrir menos vezes o Alert. Nas faculdades o tempo dedicado ao maior órgão do corpo cabe todo no “quarto de hora académico” e durante o internato geral, entre empurrar papeis nas enfermarias ou fazer urgências, só se olhava para umas borbulhas nas consultas de MGF. Tinha que aprender mais.

2 É um estágio útil, recomendo que o escolham. Vale pela densidade de casos que apanhamos nos Cuidados de Saúde Primários, talvez não todos os dias, mas certamente todas as semanas, e por um “segredo” despercebido à maioria: a triagem. Favorecida pelo registo fotográfico (dos que vão cumprindo o despacho n.º 6280/2018), a triagem é um atlas vivo, um compêndio de dúvidas dos Médicos de Família e um momento de discussão da abordagem e orientação dos diagnósticos mais prováveis, inferidos pelos dados enviados. É também, mais vezes do que as que devia, um exemplo do que não se deve fazer.

Não ponho em causa os motivos da referenciação: dúvidas todas as temos, incluindo os dermatologistas que se salvam dela a sacar bocados para análise (obrigado Patologistas) mas as queratoses seborreicas abundam e histórias clínicas sem noção de temporalidade não servem. As alterações dermatológicas não são “espíritos livres” que vivem no momento. O tempo de existência e a velocidade de uma mudança dão muita força à feieza de um sinal e prioriza os que merecem atenção.

4 A assimetria de recursos nos CSP fica exposta sob o dermatoscópio. As boas práticas pedem boas fotografias mas por “motivos” nem todas as unidades têm recursos para tal. É um dilema entre ter que adquirir a título pessoal uma câmara/usar o telemóvel e continuar a promover mediocridade ou arriscar um jogo de ping-pong com os doentes e as recusas de P1s. Somo a isto a qualidade do registo fotográfico que oscila entre imagens desfocadas em que toda as manchas se disfarçam de melanomas, as lesões que ficam de pés cortados e o contraste com o ocasional dermatoscópio fotográfico de alguma USF opulenta.

Assisti a um caso anedótico de uma doente referenciada por hidradenite supurativa, com a quarta foto do google images em anexo. A mesma imagem que qualquer interno de dermatologia usou para fazer uma apresentação do tema. Obviamente devolvido à origem com direito a risota entre todos e vergonha alheia à mistura. Reprovável, mas se pensarmos nas limitações da atual referenciação quase que se perdoa isto ter acontecido: necessidades tecnológicas, programas obtusos, labirintos burocráticos e a constante pressão do tempo promovem o tomar de atalhos. A maior limitação da teledermatologia é sem dúvida o tempo que consome.

6 A resposta da especialidade é famosamente lenta, mas até que isso seja curado o melhor que podemos fazer em prol dos nossos doentes é estarmos atualizados, exigirmos equipamentos adequados, standardizar a captura de imagens e ter brio na referenciação. Recomendo o estágio aos colegas internos de MGF, é uma ajuda preciosa na gestão diária dos doentes e na criação de pontes entre especialidades.

Fontes:

https://dre.pt/pesquisa/-/search/115600144/details/normal?l=1

http://nocs.pt/wp-content/uploads/2015/11/Telerrastreio-Dermatológico.pdf

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