O papel dos Cuidados de Saúde Primários na gestão das doenças crónicas
DATA
14/07/2020 10:03:13
AUTOR
Cláudia Azevedo
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O papel dos Cuidados de Saúde Primários na gestão das doenças crónicas

Segundo a Organização Mundial de Saúde as “doenças crónicas são doenças com longa duração e, geralmente, progressão lenta”. Consideram-se doenças crónicas as doenças cardiovasculares (como o enfarte cardíaco e o acidente vascular cerebral), cancros, doenças respiratórias crónicas (como a doença pulmonar obstrutiva crónica e asma) e diabetes. Estas são as principais causas de mortalidade no mundo, representando um total de 82% das mortes prematuras e, por esse motivo, são consideradas uma ameaça para a saúde pública mundial.

O médico de família tem um papel preponderante no diagnóstico e controlo destas patologias, uma vez que na maioria dos casos, constituiu o primeiro elo de ligação do doente com o Serviço Nacional de Saúde. A doença crónica está associada, na maioria das vezes, a hábitos de vida pouco saudáveis (sedentarismo, maus hábitos alimentares, tabaco e abuso do álcool). Assim, o médico de família deve incentivar a alteração destes fatores de risco para ganho em saúde do seu doente, família e, em última instância, o meio onde este se insere. Além disso, o médico tem o dever de diagnosticar as patologias crónicas, atuar no tratamento, acompanhar as fases silenciosas (em consultas de vigilância) e tratar as agudizações da doença, minimizando as complicações tardias.

O aumento da esperança média de vida tem contribuído grandemente, entre outros fatores, para a crescente incidência de doenças crónicas e incapacitantes. De acordo com o Inquérito Nacional de Saúde de 2014 estima-se que metade da população portuguesa sofra de uma doença crónica: 5,3 milhões de portugueses com mais de 15 anos sofrem de, pelo menos, uma doença crónica; cerca de 2,6 milhões (29%) sofre de duas ou mais; e cerca de três por cento da população portuguesa sofre de cinco ou mais doenças crónicas. Uma situação que se tem vindo a agravar com cerca de mais 2,5%/ano de doentes no grupo dos idosos. Esta situação é especialmente preocupante se se tiver em conta que estas doenças são responsáveis por cerca de 60 a 80% das despesas em saúde.

Tendo em conta estes dados epidemiológicos, cabe ao médico: Debater o impacto destas doenças, definindo estratégias de sensibilização da população (prevenção primária que pretende reduzir a incidência de doença na população); Definir estratégias de atuação eficaz em caso de doença já estabelecida (a prevenção secundária que visa a deteção precoce de problemas de saúde em indivíduos assintomáticos); Proporcionar melhor qualidade de vida no caso de doentes em estadios tardios de evolução e sem possibilidade de cura (a prevenção terciária que pretende reduzir a incapacidade provocada pela doença já estabelecida, promovendo a adesão à terapêutica, assim como a utilização dos serviços de reabilitação).

As equipas multidisciplinares (médico de família, médicos de outras especialidades, enfermeiros e, quando necessário, assistentes sociais, psicólogos e nutricionistas) atuam de forma a avaliar as necessidades das doentes dando-lhes uma resposta integrada. Reconhece-se que esta atitude reduz a recorrência aos Serviços de Urgência por parte de doentes crónicos e aumenta a adesão dos doentes a cuidados continuados em saúde.

Assim, como se poderá fazer frente ao desafio que as doenças crónicas constituem, atualmente, na população portuguesa? Será necessário: Identificar as populações de risco; Integrar os cuidados médicos, de enfermagem, de reabilitação, de apoio social, entre outros; Dar respostas adequadas às necessidades dos doentes; Capacitar os doentes/cuidadores para o autocuidado; Apostar em equipas multidisciplinares de forma a acompanharem de forma ativa o doente, mesmo antes das agudizações da patologia de base e antes do desenvolvimento de patologias associadas ou novas.

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