Novos desafios na amiloidose hereditária relacionada com a transtirretina associada a neuropatia ou paramiloidose

A amiloidose hereditária relacionada com a transtirretina associada a neuropatia (hATTR-PN), mais comumente conhecida como paramiloidose, é uma doença neurodegenerativa de início na idade adulta. Estima-se que, mundialmente, existam cerca de 50 mil doentes com amiloidose hereditária associada a mutações da transtirretina dos quais 10 mil têm manifestações predominantemente neuropáticas (hATTR-PN), a forma mais frequente em Portugal. O mais recente estudo epidemiológico realizado em Portugal, em 2016, identificou cerca de dois mil doentes, representado cerca de 20% dos doentes em todo o mundo.

O conhecimento dos mecanismos envolvidos na génese da doença permitiu estabelecer o transplante hepático, em 1990, como o primeiro tratamento com reconhecida eficácia terapêutica.  A necessidade de desenvolver terapêuticas não invasivas e com menor risco de mortalidade e morbilidade inerentes ao transplante hepático trouxe para o panorama atual fármacos que permitem uma estabilização da doença, melhoria da qualidade de vida e aumento da sobrevida.

Três diferentes medicamentos – tafamidis, patisiran e inotersen – estão atualmente aprovados em vários países da União Europeia (UE), incluindo Portugal, e nos Estados Unidos da América (EUA). Ao estabilizar a proteína TTR (tafamidis) ou degradar o seu mRNA (inotersen e patisiran), todos os tipos de tratamento visam prevenir a deposição de substância amiloide e interrupção do mecanismo patogénico da doença.

Em Portugal, o tafamidis foi aprovado em 2011 apenas para os doentes cuja marcha ainda é possível sem ajuda (estadio 1) e tratou-se do primeiro fármaco aprovado com eficácia terapêutica comprovada. A ausência de alternativas terapêuticas para os doentes sem indicação ou sem resposta eficaz ao tafamidis ou transplante hepático é agora ultrapassada pela recente aprovação dos dois outros fármacos (inotersen e patisiran), abrindo assim novas perspetivas de tratamento.

Novos desafios mantêm-se no horizonte, com ensaios clínicos com agentes terapêuticos que visam a aprovação de formulações associadas a menores efeitos secundários, diferentes formas de administração, bem como com indicação para as formas predominantemente cardíacas. Permanece ainda um desafio, ainda não atingido, que passa pela necessidade de desenvolver fármacos que possam combater as comorbilidades oculares e cerebrais associadas à doença.

Em conclusão, esta é uma doença degenerativa com um significativo e crescente impacto socioeconómico, com custos elevados para os sistemas de saúde, em parte como consequência da escassez de opções terapêuticas eficazes no combate à doença e às comorbilidades associadas.

COVID e não-COVID: Investimentos para resolver novos e velhos problemas
Editorial | Rui Nogueira, Médico de Família e presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar
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Acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho. O estado de emergência terminou e o estado de calamidade passou, mas o problema de saúde mantem-se ativo. É urgente encontrar uma visão inovadora e adotar uma nova estratégia. As unidades de saúde precisam de encontrar respostas adequadas e seguras.

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