Desculpem, mas eu li! Preocupações para além da Covid
DATA
15/07/2020 15:15:17
AUTOR
Rui Cernadas
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Desculpem, mas eu li! Preocupações para além da Covid

Diria que a pandemia que marca esta década criou desafios insondáveis e nos confrontou – enquanto cidadãos, sociedades, serviços públicos de saúde e outros similares e Estados – com o verdadeiramente inesperado, impensável e incerto.

O tempo despendido foi ganho ou perdido?

Mas, há vida e preocupações muito para além da infeção e das mortes que os boletins diários parecem querer resumir.

Nessa medida, por exemplo, veremos como as novas orientações para a avaliação económica das tecnologias da saúde se vão comportar, nomeadamente face à inovação diagnóstica e terapêutica que aí se aproxima. E que impacto e aporte vai produzir e aproveitar mediante as questões da saúde mental e da saúde pública que ficaram a nu ou sem respostas imediatas na primeira metade do ano de 2020.

Penso, entre outros temas, no envelhecimento e no “acantonamento” a que se foram condenando, sobretudo em regiões urbanas, os mais idosos e os sem autonomia ou outros apoios.

Vimos como depois da chegada à Europa do novo vírus o mundo desenvolvido compreendeu melhor como a saúde é realmente um determinante estruturante do bem-estar e da economia.

Poderemos arriscar dizer agora que não é em vão que se afirma que o impacto da saúde ultrapassa em muito os efeitos no produto interno bruto dos países, seja pela via desejável da melhoria, seja pela via do infortúnio e do inverso…

Vamos certamente doravante compreender como as sociedades mais capazes, com uma boa saúde mental e com melhor qualidade de vida, enfrentam de forma mais resiliente a adaptação que, quer o trabalho, quer a vida do dia a dia nos vão oferecer e impor.

Em Portugal, como por toda a parte, ouvimos falar dos médicos de trabalho e dos médicos de saúde pública. Ainda que com visibilidades e audiências totalmente inversas.

E aparentemente por razões distintas e dimensões bem díspares, ambas necessárias e decisivas.

Em relação aos médicos do trabalho, recordando o seu papel e função na sociedade e na direcção de locais e empresas para trabalho saudável e seguro, numa missão nem sempre reconhecida e tida por mera obrigação legal para muita gente. Permitir ou contribuir para que as pessoas e os trabalhadores se sintam activos, seguros e saudáveis é, no vértice duma relação de equilíbrio entre estes e os empregadores, decisivo para a redução da pobreza e para a melhoria da saúde mental e física.

Quanto aos médicos de saúde pública, especialidade que se confronta incompreensivelmente com uma falta de “vocações”, ameaçando ou raiando uma espécie em extinção, o seu papel e missão na pandemia e no trabalho de campo ficou bem sublinhado e publicitado.

A promoção da saúde e a prevenção das doenças, sobretudo as de natureza infetocontagiosa e as crónicas e degenerativas, são eixos fundamentais do seu dever e competência em matéria de planeamento, observação epidemiológica, proposta de atuação e normalização de procedimentos.

A gestão de cuidados integrados beneficia e precisa do desenvolvimento tecnológico e da informação digital. De resto, estes sistemas podem assegurar a proteção de dados e garantir padrões éticos que facilitarão a pesquisa, o controlo, o registo e notificação de enorme potencial na saúde pública.

Fica um desafio para o futuro que está aí: por que não gerar um espaço nacional de dados de saúde que aproveite o que já existe, quer do lado dos hospitais, quer do lados cuidados primários, e que integre os dados dos aplicativos da saúde ocupacional das empresas com milhares e milhares de dados e os estruture numa megabase da Saúde Pública em Portugal?

COVID e não-COVID: Investimentos para resolver novos e velhos problemas
Editorial | Rui Nogueira, Médico de Família e presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar
COVID e não-COVID: Investimentos para resolver novos e velhos problemas

Acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho. O estado de emergência terminou e o estado de calamidade passou, mas o problema de saúde mantem-se ativo. É urgente encontrar uma visão inovadora e adotar uma nova estratégia. As unidades de saúde precisam de encontrar respostas adequadas e seguras.

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