A pandemia: uma pedra no caminho
DATA
15/07/2020 15:19:16
AUTOR
Joana Rita Mendes e Ana Luís Faria
ETIQUETAS




A pandemia: uma pedra no caminho

“Quem estará nas trincheiras ao teu lado? 

E isso importa?

Mais do que a própria guerra.”

– Ernest Hemingway –

Surgiu a novidade em dezembro, soou o alarme em janeiro, ficou-se em alerta em fevereiro, montaram-se exércitos em março, saltámos para as trincheiras em abril! Atravessámos (e continuamos a atravessar) uma época em que a responsabilidade de cuidar dos outros, nomeadamente de quem depende de nós, se tornou premente. A Organização Mundial de Saúde declarou a infeção por SARS-CoV-2, dando origem à doença Covid-19 como pandemia internacional a 11 de março de 2020. Sete dias depois foi decretado o estado de emergência em Portugal.1

Foram (e são) tempos de grandes mudanças! Foi montada uma “linha da frente” no Serviço Nacional de Saúde (SNS), em que, paralelamente às adaptações dos cuidados de saúde hospitalares, ocorreu uma das mais radicais reestruturações organizacionais dos cuidados de saúde primários (CSP).

A célere adaptação às novas circunstâncias, numa verdadeira corrida contra o tempo, trouxe novas equipas de trabalho, circuitos, procedimentos, instalações… Tudo feito em contrarrelógio! A manutenção de serviços mínimos pelas Unidades, a construção de áreas independentes e exclusivamente dedicadas ao COVID na Comunidade, o reinventar de novas formas de comunicação para chegar aos utentes em segurança, o teletrabalho... Tantas mudanças em tão curto tempo!

O médico de família, segundo a World Organization of Family Doctors (WONCA)2 define-se como o primeiro ponto de contacto do utente com o sistema de saúde, permitindo um acesso aberto ao mesmo. Arriscamo-nos a dizer que os pilares de sustentação de toda a pandemia, evitando o entupimento e superlotação dos hospitais, assentaram no acompanhamento que a Medicina Geral e Familiar (MGF) e a Saúde Pública deram à sua população, tanto a doentes assintomáticos, como com sintomatologia ligeira a moderada. O controlo clínico da maioria dos doentes infetados e dos seus contactos, permitiu aos profissionais em contexto hospitalar concentrar recursos, energia e dedicação a situações graves e com necessidades de cuidados especializados.

Enquanto internas de formação específica em MGF, o nosso percurso individual no Internato deixou de fazer sentido, voltámos à essência da nossa profissão: ser médicas! A surpresa que esta pandemia nos trouxe e a inquietação do desconhecido alimentaram a vontade irrequieta de ajudar na “linha da frente”. Transformamos o medo em paixão, passamos da retórica à ação, encontrando um equilíbrio entre o receio e a tranquilidade, que nos permitiu explorar um “mundo novo” na alocação à Área Dedicada ao COVID na Comunidade (ADC-C), do Agrupamento de Centros de Saúde (ACES) de Gondomar. As primeiras noites foram de sonhos “víricos”, e-mails a velocidade estonteante, horas a fio a ler e absorver toda a informação disponível sobre o inimigo invisível!

Diariamente surgem obstáculos, tarefas “para ontem”, reajustes perante as limitações de recursos materiais e humanos… Foi necessário reinventar, abrir os braços a ajudas de anónimos (muito obrigada!), estar sempre atento a pontas soltas! Trabalhar em equipa é exigente e para o sucesso é essencial uma liderança justa, firme, proativa e dinamizadora! Mas, também são precisos elementos versáteis, resilientes, motivados, confiantes, solidários, criativos, em que o bem comum se sobrepõe ao bem individual! Quatro pilares essenciais: união, trabalho, disciplina e profissionalismo. Para obter um saldo positivo é necessário deixar para trás o individualismo, a hostilidade, a tensão, a competição e a falta de reconhecimento. Atenuaram-se hierarquias entre grupos profissionais, o conceito de interno e de orientador de formação desvaneceu-se – todos, lado a lado, nas "trincheiras”. Juntando estes ingredientes, cozinhou-se uma equipa unida, focada num mesmo objetivo. Fermentaram-se novas relações de amizade, intensificou-se o sabor de outras, construiu-se uma identidade, uma frente de batalha em que “juntos somos mais fortes”. Conseguir ver a luz ao fundo do túnel faz-se com a partilha de experiências, a expressão de emoções, pausas reconfortantes e momentos de lazer conjuntos.

Foi durante este percurso acidentado que começámos a abrir os olhos para o que brilha em tempos de escuridão: essa energia ativa do trabalho em conjunto, a união de diferentes profissionais (médicos, enfermeiros, secretários clínicos, assistentes operacionais, seguranças, órgãos de gestão) e personalidades, o empenho e dedicação. E a pedra no caminho – do Internato, da nossa vida pessoal, dos nossos projetos – passou a parecer-se cada vez menos com um muro... Transformando-a num degrau, apercebemo-nos que, durante esta pandemia, tivemos (e temos) a oportunidade de crescer como internas, médicas de família e pessoas!

Bibliografia:

Direção-Geral da Saúde. COVID-19: FASE DE MITIGAÇÃO. Abordagem do Doente com Suspeita ou Infeção por SARS-CoV-2. Norma nº 004/2020 de 23/03/2020, atualizada a 25/04/2020

The European Definition of General Practice / Family Medicine. WONCA EUROPE 2011 Edition

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