A formação em Saúde mudou para sempre
DATA
15/07/2020 15:25:06
AUTOR
Diogo Silva e Eduardo Freire Rodrigues
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A formação em Saúde mudou para sempre

A revolução digital que caraterizou as últimas décadas, conduziu a um imperativo de inovação transversal a todas as áreas da sociedade. Neste ensaio, vamos debruçar-nos sobre as especificidades da educação médica, em particular sobre como podemos finalmente avançar na digitalização da educação médica contínua, reforçando as boas práticas que já produzem profissionais de saúde de alta qualidade, mas facilitando a adoção de novas metodologias que permitem simplificar e melhorar o processo de atualização e desenvolvimento profissional.

A transformação da educação médica, desde o digital à simulação, tem sido um processo lento e ambíguo. Por um lado, a tecnologia e o conhecimento evoluíram e existem ferramentas e recursos para ensino à distância – agora mais experiencial e mais interativo – que poderiam estar em pleno uso nos hospitais e escolas médicas. Por outro, existem momentos de ensino-aprendizagem em que o contacto presencial e a prática são a fonte de conhecimento. Que ferramentas e que conhecimentos são esses? Que competências são necessárias? E que vantagens apresentam para os profissionais de saúde?

A Covid-19 colocou-nos a todos numa corrida contra o tempo e com olhos vendados de incerteza, mas também criou o ambiente ideal para testar novas soluções.

A Saúde, que estava essencialmente conformada com um formato presencial-expositivo, foi obrigada a reinventar-se em poucos dias. A necessidade de informação disparou e chegava das mais variadas fontes. Quando a formação presencial parou, a atualização científica tornava-se mais relevante do que nunca. Aos profissionais de saúde exigiram-se respostas rápidas e capacidade de adaptação a novas funções. Estes conseguiram e superaram-se na adoção de novas metodologias de aprendizagem e partilha de conhecimento.

O status quo mudou e a nossa resistência à mudança também. Partimos de uma realidade em que a educação médica pré e pós-graduada resistia à adoção em grande escala de novos métodos de aprendizagem, entre as quais as ferramentas digitais. O uso formal de formações online ou webinars ainda era raro, persistindo momentos expositivos nos moldes tradicionais e, de um modo geral, os formandos não aproveitavam a multiplicidade de possibilidades permitidas pelas ferramentas digitais.

Com a mudança repentina do contexto, o que estava latente e em fase de desenvolvimento acabou por ser lançado num ápice, a atividade assistencial abraçou as teleconsultas, as aulas e formações médicas adotaram o online e a produção de conteúdo digital passou de exceção a regra.

Se por um lado, soubemos reinventar-nos e reagir durante tempos conturbados, resta saber o que faremos à medida que a situação volta ao “normal”. Ou será que não vai voltar? Se queremos aproveitar esta oportunidade e dar o salto na formação, quais os caminhos reais que podemos seguir?

Como ponto de partida, pensemos na adoção de tecnologias digitais. Com a suspensão de todas as atividades letivas presenciais, recomendada pelo Conselho de Escolas Médicas Portuguesas (CEMP) no início de março, e a reorganização hospitalar, possibilidades como webinars e cursos de formação contínua através de plataformas digitais foram a janela de oportunidade para profissionais de saúde nos mais variados contextos. São inúmeras as experiências digitais que podem contribuir para o desenvolvimento dos profissionais de saúde: cursos totalmente online ou mistos, intercalados com momentos presenciais, fluxogramas de apoio à decisão clínica à distância de um clique, plataformas para simulação clínica de alta fidelidade para treino clínico avançado ou comunidades digitais que partilhem o conhecimento de forma mais rápida e acessível.

As vantagens da tecnologia são igualmente profusas. Em primeiro lugar, permitem o acesso a conhecimento mais rápido, mais contextualizado e mais escrutinado. Esta vantagem é essencial no contexto particular de uma pandemia, mas também no quotidiano da saúde, no qual não basta que os profissionais estejam a par da evidência científica mais recente, mas também é preponderante que saibam adaptar os conhecimentos científicos à prática clínica diária, às necessidades dos doentes e, simultaneamente, cooperar em comunidades cada vez maiores de prestadores de cuidados consolidados. Mais, falamos de métodos que, além da conveniência que oferecem aos seus utilizadores, em termos de tempo e espaço, apresentam um elevado nível de personalização e permitem que cada profissional se atualize em aspetos específicos, de acordo com as suas necessidades particulares.

A par da inovação digital, há outros caminhos que devemos analisar e explorar na formação médica contínua. Um deles é a simulação, já usada em alguns locais, mas ainda residualmente. Quando falamos da simulação, falamos de uma metodologia formativa que, pela interatividade intrínseca permite melhorar o conhecimento e a performance clínica em treinos rápidos. Está provado que produz resultados positivos no ensino, já que diminui as assimetrias entre a teoria e a prática assistencial, permite controlar uma sequência de tarefas e previne situações de risco, na medida em que consente falhas e confronta cada profissional com os seus limites ou lacunas. O procedimento é igualmente relevante para antecipar o contacto dos médicos com doenças raras ou para otimizar o trabalho de equipa, por exemplo, reduzir incertezas e aprender num ambiente seguro, realístico, previsível e sem risco, tanto para profissionais como para os doentes. O mesmo se aplica à possibilidade de repetir e melhorar processos, tornar claras as abordagens de diagnóstico e terapêutica, aumentando consequentemente o grau de confiança dos profissionais em momentos críticos em que o tempo para tomar decisões complexas é curto.

Relacionado com a simulação, assistimos a um crescimento dos serious games aplicados à educação e, especificamente à educação médica. O conceito é simples: utilizar os princípios do jogo – como a curiosidade, a competição e os desafios – para proporcionar uma experiência de formação imersiva e envolvente que conduz à aquisição de competências específicas. A aplicabilidade destas metodologias é infinita, uma vez que podem ser desenhadas em torno de qualquer objetivo pré-definido. Temos vários exemplos de jogos sérios desenvolvidos para doentes, para promover a adesão terapêutica, por exemplo, mas também para profissionais de saúde, incluindo um escape game clínico desenhado para que equipas possam desenvolver competências clínicas e comportamentais, simultaneamente.

Lidar com o surgimento de uma pandemia é uma tarefa complexa. O contexto atual impôs e continua a impor desafios a todos os sistemas de saúde, mesmo aos mais desenvolvidos. Em Portugal, expôs as fragilidades de um sistema demasiado assente em formatos presenciais, a falta de canais digitais de comunicação entre as equipas, o que num contexto em que a copresença física foi restringida era ainda mais relevante. Por outro lado, foi o gatilho necessário para que processos que estavam em vias de ser implementados há décadas fossem implementados em poucos dias. Foi o cenário ideal para provar a utilidade das ferramentas digitais para filtrar a informação científica, facilitar o processo de decisão dos profissionais, padronizar a prestação de cuidados e aumentar a segurança dos doentes.

Temos agora o desafio e a oportunidade de dar mais um passo em frente neste caminho e usar a criatividade e inovação de que dispomos para repensar estrategicamente a educação médica contínua e produzir resultados consistentes também a longo prazo.

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