Alimentação: Da Medicina à Saúde do planeta
Em 2020 o mundo travou a fundo, de forma mais ou menos consciente. E depois do abalo inicial, a pandemia por Covid-19 levou-nos numa corrida desenfreada contra um inimigo desconhecido, reorganizando-se prioridades e testando a nossa capacidade de adaptação.

E enquanto tomávamos real perceção da dimensão do problema, reconhecendo a nossa fragilidade perante esta nova ameaça, a contenção social trouxe um despertar inédito acerca da saúde do planeta, vítima indefesa às mãos do ser humano. Perante o desconforto deste cenário, poderíamos estarrecer-nos ou ver nele uma oportunidade de crescimento. Uma escolha aparentemente inocente, mas assente numa temática sobre a qual todos deveríamos refletir.

É certo que a Medicina tem como primeiro alvo a saúde do ser humano. Mas, não será essa uma perspetiva demasiado redutora da nossa atividade? Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura  (FAO), dietas sustentáveis são dietas com baixo impacto ambiental que contribuem para a segurança alimentar e nutricional e para uma vida saudável das gerações presentes e futuras.1 E se por um lado as dietas de base vegetal (DBV) – com predomínio ou consumo exclusivo de alimentos de origem vegetal – se têm vindo a destacar por inúmeros benefícios associados à saúde do ser humano, por outro, a produção de alimentos de origem vegetal requer menos recursos naturais do que a dos de origem animal, pelo que este é também um padrão alimentar mais sustentável.2,3

Reconhecemos assim na alimentação um ponto de encontro entre Medicina e sustentabilidade, sendo que abordar este tema, avaliar hábitos identificando fatores de risco/protetores e promover a educação alimentar junto dos nossos doentes, incluindo as particularidades de uma DBV, pode contribuir de forma notável para a sua saúde.

De facto, as DBV têm vindo a despertar progressivamente mais interesse na comunidade científica, sendo alvo de inúmeros estudos. Têm-se evidenciado benefícios como menor prevalência de doença oncológica, obesidade, excesso de peso, doença cardiovascular, dislipidemias, hipertensão arterial, diabetes, melhoria do bem-estar psicológico e maior longevidade, em comparação com indivíduos que não adotam este padrão alimentar.2, 4-5

E se por um lado muitas das propriedades nutricionais dos alimentos de origem vegetal participam nestes benefícios, é também de considerar o papel da redução de fatores de risco típicos da dieta ocidental, como a do consumo de carne, nomeadamente carne processada e carne vermelha, classificadas respetivamente como carcinogénio (grupo 1) e provável carcinogénio para o ser humano (grupo 2A), pela Organização Mundial de Saúde.6

Infelizmente, este tipo de avaliação e aconselhamento tem sido deveras negligenciado, numa Medicina onde o tempo é inimigo da adequada gestão da consulta e a farmacologia se revela uma arma poderosa e acessível, desviando-nos do desconforto e morosidade de qualquer alteração de estilo de vida. Mas, não será nosso dever informar os doentes do real potencial da alimentação como protetora e promotora da saúde e qualidade de vida, contrariando a tendência crescente de convívio com doenças crónicas, polimedicação e outras intervenções não inócuas e potencialmente evitáveis? Embora estas práticas sejam indispensáveis numa Medicina baseada na evidência, seria importante concretizar o degrau alimentar no desenrolar da consulta antes de nos precipitarmos para o topo da escada. E atendendo a que a formação médica apresenta uma lacuna gritante na educação alimentar e seu impacto na saúde, terá de partir de nós investir na formação e integração desta prática na atividade clínica, idealmente partilhando-a com nutricionistas. Assim, oferecemos ao doente a oportunidade de uma escolha informada e construção estruturada de uma dieta saudável. E talvez paralelamente o mundo se vá sensibilizando para o papel da alimentação na sustentabilidade do planeta, que é também a de todos nós.

 

Bibliografia

[1] Burlingame B, Dernini S. Sustainable diets and biodiversity: directions and solutions for policy, research and action. Proceedings of the International Scientific Symposium, Biodiversity and Sustainable Diets United Against Hunger. Rome, Italy: FAO Headquarters; 2010. p. 83.

[2] Oussalah A, Levy J, Berthezene C, Alpers DH, Gueant JL.Health outcomes associated with vegetarian diets: An umbrella review of systematic reviews and meta-analyses. [published online ahead of print, 2020 Mar 11]. Clin Nutr. 2020;S0261-5614(20)30101-1.

[3] Melina V, Craig W, Levin S. Position of the academy of nutrition and dietetics: vegetarian diets. J Acad Nutr Diet. 2016;116:1970–80.

[4] Direção Geral da Saúde. Linhas de Orientação para uma Alimentação Vegetariana Saudável. 2015.

[5] Segovia-Siapco G, Sabaté J. Health and sustainability outcomes of vegetarian dietary patterns: a revisit of the EPIC-Oxford and the Adventist Health Study-2 cohorts. Eur J Clin Nutr. 2019 Jul;72(Suppl 1):60-70.

[6] International Agency for Research on Cancer. Volume 114: Consumption of red meat and processed meat. IARC Working Group. Lyon; 6–13 September, 2015. IARC Monogr Eval Carcinog Risks Hum (in press).

O novo normal e a nova realidade – que alterações provocadas pela pandemia vieram para ficar?
Editorial | Jornal Médico
O novo normal e a nova realidade – que alterações provocadas pela pandemia vieram para ficar?
Acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho. Encontrar uma nova visão e adotar uma nova estratégia útil na nossa prática clínica quotidiana. Valorizar as unidades de saúde por estarem a dar as respostas adequadas e seguras é o mínimo que se exige, mas é urgente e inevitável um plano de investimento nos centros de saúde do Serviço Nacional de Saúde.

Mais lidas