Desculpem, mas eu li! Sinais dos tempos
DATA
14/09/2020 14:08:57
AUTOR
Jornal Médico
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Desculpem, mas eu li! Sinais dos tempos
A situação da nova infeção por coronavírus e os seus impactos à escala planetária irão merecer e justificar estudo aturado e continuado.

A mediatização da pandemia nas suas múltiplas dimensões e a gestão e aproveitamentos políticos, por exemplo, são consequências ímpares para tal trabalho e investigação.

No plano económico e financeiro, diziam os entendidos em negócios bolsistas e especulativos, que se aproximava nova bolha imobiliária e outra crise financeira de grande dimensão. Mas, eis que a Covid-19 apareceu e a crise, foi generalizada e simultânea.

Mas isso serão contas de outros rosários…

Não creio, porém, que infelizmente venham a perdurar os efeitos e os ganhos em literacia associada aos conceitos de saúde pública, de comportamentos sociais e individuais adequados, da noção epidemiológica de transmissão e contágio, de prevenção numa palavra.

Os líderes mundiais dividiram-se entre os assustados, os receosos, os sensatos, os fanfarrões, os imbecis, os ditadores, os incultos, os céticos e os que passam entre os pingos da chuva... Mas, não esqueceremos os que da cátedra da demagogia e da ignorância, avançaram, propuseram ou incitaram a medidas estúpidas e perigosas – quantas vezes tentando influenciar e condicionar a melhor prática médica.

A Covid-19 deixa como herança clínica, entre outras, a necessidade e a importância do reposicionamento de fármacos, o que os anglo-saxónicos designam de “drug repurposing” ou “drug reprofiling”.

Falo do processo de procura ou descoberta de novos usos terapêuticos para medicamentos já antes aprovados em diversas indicações. Na verdade, este modelo de investigação e desenho clínico visou, desde o início deste século, assegurar uma maior rentabilidade à indústria farmacêutica e/ou redirecionar alguns fármacos para áreas bem diferentes. Talvez o sildenafil lançado para a disfunção eréctil possa ser um bom exemplo, dado que desde o início do procedimento de desenvolvimento da molécula estava apontada à angina de peito.

Os desejos de chefes de Estado de delinearem “guidelines” para a Covid-19 roçou o ridículo e tornou-se ameaçador. Lembrou-me, em Portugal, do lamentável episódio de deputados a decidirem e votarem um plano inovador de vacinação pública!

A caduca interpretação de uma dimensão sobrenatural e mágica relacionada com os efeitos farmacológicos confundiu o sentido de estratégias off-label com os imperativos éticos de nos limites do aceitável tudo tentar para salvaguarda das vidas esgotadas…

E a onda de crença em medicamentos curadores ou vacinas preventivas dificulta a perspectiva racional e científica e facilita as curas milagrosas que as redes sociais difundem.

Isto em termos médicos, sejamos claros, não deve iludir ou fazer ignorar que a indústria farmacêutica, de algum modo, criou ou beneficiou em torno do medicamento de uma aura de bem de consumo. Há toda a noção de um ciclo de vida que não morre pela cessação da actividade e desempenho farmacológico, mas pela perda de patente, de aparecimento de genérico…

É nesta linha de raciocínio que, à luz de alguns apontamentos sobre a utilização de fármacos em contingência Covid-19, pode fazer história prolongar e reforçar o seu estudo e análise, longe, bem longe até das suas indicações oficialmente aprovadas.

De resto, sabendo-se que os custos globais de lançamento de novos medicamentos está muito acima dos registados no passado século, esta poderia ser uma via interessante a discutir e a aprofundar.

A conversa sempre em cores e tons diversos sobre a inovação terapêutica poderia no fundo, num cenário deste tipo, ganhar outras consistências.

E os orçamentos públicos dedicados à saúde outros ânimos.

O novo normal e a nova realidade – que alterações provocadas pela pandemia vieram para ficar?
Editorial | Jornal Médico
O novo normal e a nova realidade – que alterações provocadas pela pandemia vieram para ficar?
Acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho. Encontrar uma nova visão e adotar uma nova estratégia útil na nossa prática clínica quotidiana. Valorizar as unidades de saúde por estarem a dar as respostas adequadas e seguras é o mínimo que se exige, mas é urgente e inevitável um plano de investimento nos centros de saúde do Serviço Nacional de Saúde.

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