Uma nova forma de fazer Medicina
DATA
14/09/2020 14:30:30
AUTOR
Jornal Médico
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Uma nova forma de fazer Medicina
Quando ingressei no internato de Medicina Geral e Familiar (MGF) estava longe de imaginar que o meu 4.º ano fosse tão diferente do habitual. Como é possível um ser invisível mudar a vida de tantos biliões de pessoas e virar o mundo de pernas para o ar de um dia para o outro!?

No caso particular das unidades de saúde familiar (USF), houve necessidade de reorganizar todo o seu funcionamento, desde a suspensão de parte da atividade assistencial, passando pela criação de circuitos distintos, até à reformulação completa das agendas. E, de repente, as nossas mesas encheram-se de papéis e mais papéis, desde pedidos de medicação, exames complementares de diagnóstico, pedidos de retorno de chamada, emails, entre outros… De um momento para o outro passámos a ser autênticas secretárias e telefonistas, não descredibilizando de todo o trabalho destes profissionais, que tão importante é para o funcionamento das instituições. Mas, não foi esta a Medicina que escolhi…

Desde os tempos da faculdade, somos ensinados a privilegiar o contacto direto com o doente, a atentar à linguagem verbal e não verbal, estabelecendo uma boa comunicação bidirecional. Desde cedo é enfatizada a importância da realização de uma história clínica detalhada e de um exame objetivo minucioso. E de um dia para o outro, como se já não bastasse a barreira do “tempo” – anteriormente existente – vemo-nos obrigados a interagir à distância, através de um telefone ou de um computador. 

Sempre fui muito cética em relação às plataformas digitais de prestação de cuidados de saúde que já existiam na era pré-Covid, pois iam contra todos os princípios da MGF e da Medicina em geral. E de um momento para o outro vi-me obrigada a fazer aquilo em que nunca acreditei.

É verdade que vivemos num mundo cada vez mais virtual e a telemedicina pode facilitar o acesso aos serviços de saúde. Mas, será que isso se reflete na qualidade dos cuidados prestados? Será possível converter a telemedicina no novo estetoscópio? Para além de que, na maior parte das vezes, os doentes mais frágeis são aqueles que não dominam o telemóvel ou não possuem um computador com internet.

O facto de não poder olhar nos olhos, tocar, criar uma relação de empatia limita, em muito, a relação médico-doente e, o mais lamentável, é que os mais lesados são os doentes. Tudo isto também cria em nós, médicos, um sentimento de frustração e impotência, na medida em que sentimos que não estamos a fazer tudo o que podíamos e devíamos pelos doentes. Há dias em que apetece desistir e rumar noutro sentido. Mas, nem sempre o caminho mais fácil é o melhor e acredito que estas adversidades que vamos ultrapassando, ou pelo menos tentando, nos fortalecem e enriquecem enquanto pessoas e profissionais. E é este exercício de resiliência que temos de ir fazendo todos os dias.

Esta nova forma de fazer Medicina não me agrada, mas a Medicina praticada antes da pandemia também não era perfeita, está sempre a evoluir e, provavelmente, nunca o será. Infelizmente e cada vez mais, os doentes são números e os profissionais de saúde peças de um jogo de tabuleiro. Aos poucos as coisas vão começando a voltar ao “normal”. Mas, será que queremos mesmo que as coisas voltem ao que eram antes? Talvez seja uma boa altura para refletir no que queremos realmente para o nosso futuro. Talvez estejamos todos a ser postos à prova e esta seja uma oportunidade para fazer a diferença, para criar uma Medicina melhor, uma Medicina mais humanizada.

O novo normal e a nova realidade – que alterações provocadas pela pandemia vieram para ficar?
Editorial | Jornal Médico
O novo normal e a nova realidade – que alterações provocadas pela pandemia vieram para ficar?
Acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho. Encontrar uma nova visão e adotar uma nova estratégia útil na nossa prática clínica quotidiana. Valorizar as unidades de saúde por estarem a dar as respostas adequadas e seguras é o mínimo que se exige, mas é urgente e inevitável um plano de investimento nos centros de saúde do Serviço Nacional de Saúde.

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