O desafio terapêutico na relação médico-doente

Uma boa relação médico-doente é há muito tempo estudada como uma ferramenta indispensável para atingir um bom controlo ou cura das patologias que afetam os utentes. No entanto, muitas vezes existem fatores que influenciam negativamente esta relação, como por exemplo a desinformação que existe hoje em dia. Com efeito, com apenas alguns “cliques” na Internet consegue-se ter uma parafernália de informação para os nossos sintomas, nem sempre fidedigna.

Muitas vezes, na minha prática clínica, deparo-me com resistências à introdução de novos medicamentos. As razões mais comuns que costumamos ouvir prendem-se com o facto de os utentes serem avessos à medicação no geral ou então que ouviram falar negativamente de tal fármaco. Nestes casos devemos procurar sempre perceber se houve alguma má experiência de conhecidos, ou qual a fonte dos factos que o doente conhece.

Encontramos também doentes que têm as patologias descontroladas, como por exemplo a diabetes ou hipertensão. Investigamos a causa e invariavelmente respondem que não têm tomado a medicação porque acabou ou achavam que não mais precisavam. Este é um desafio enorme para os médicos de família que acompanham os doentes ao longo do tempo. Este facto é uma vantagem também pois vamos ter mais tempo para falar com o nosso doente e, paulatinamente, percebendo os seus receios em relação à medicação, orientando da melhor forma os seus anseios para atingir o controlo da doença. Por vezes também descobrimos que as razões económicas ainda imperam muito na hora de comprar medicamentos ou fazer determinada terapia. Acaba por ser frustrante enquanto médicos não termos sempre uma resposta para estes doentes, embora o Estado Social tenha evoluído muito nas últimas décadas.

Os médicos de família estão na linha da frente para serem os “advogados” de saúde dos doentes, primando por lhes oferecer os melhores conselhos, bem como defendendo-os nos limites da sua profissão de tudo o que possa ser prejudicial ao seu bem-estar físico, mental e social.

A pandemia atual veio também fortalecer esta relação de “defesa” do utente pois todos os dias surgem novas informações e muitas vezes contraditórias. Ser médico é também estar atualizado cientificamente e pela comunicação social do mundo que o rodeia. Mais que nunca temos de nos manter sempre alerta para as informações que correm e estar um passo à frente, por forma a informarmos criteriosamente os nossos utentes.

O novo normal e a nova realidade – que alterações provocadas pela pandemia vieram para ficar?
Editorial | Jornal Médico
O novo normal e a nova realidade – que alterações provocadas pela pandemia vieram para ficar?
Acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho. Encontrar uma nova visão e adotar uma nova estratégia útil na nossa prática clínica quotidiana. Valorizar as unidades de saúde por estarem a dar as respostas adequadas e seguras é o mínimo que se exige, mas é urgente e inevitável um plano de investimento nos centros de saúde do Serviço Nacional de Saúde.

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