Tomar conta dos netos: Mais do que um dia de brincadeira?
DATA
18/09/2020 10:09:26
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Jornal Médico
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Tomar conta dos netos: Mais do que um dia de brincadeira?

Avós… Diz o Dicionário da Língua Portuguesa que a palavra significa “1. antepassados; avoengos. 2. os pais da mãe ou os pais do pai”. 1

Em boa verdade e numa visão literal, os nossos avós são isso mesmo: os pais dos nossos pais. Contudo, a minha primeira questão é: “O que representam os avós para nós, netos?” São aquelas pessoas que vamos visitar aos domingos e com quem almoçamos depois da missa? São os nossos vizinhos? São as pessoas que nos vão buscar à escola? São os que fazem os trabalhos de casa connosco? Ou são aqueles viajantes que nos visitam de repente e trazem histórias novas para contar? O que leva à minha segunda questão: “O que é esperado dos avós?”.

Comparativamente ao que acontecia há algumas décadas, hoje em dia nos países desenvolvidos os avós têm mais anos de vida com os seus netos, em princípio saudáveis e com qualidade. Em média, uma criança tem três a quatro avós vivos durante a sua infância.2

Aliado a este ponto, a dinâmica da sociedade tem vindo a alterar-se: ambos os elementos do casal jovem vão trabalhar e têm objetivos de carreira ou económicos que procuram atingir. Assim, os avós são vistos como uma fonte de cuidados segura e fiável para os filhos, assegurando que o cuidado é feito em família. São ainda de uma importância vital em alturas de ajuda na dinâmica familiar como por exemplo: horário de trabalho dos pais por turnos, dificuldades económicas, divórcios, migração, entre outros. Cada vez mais se verifica que são os avós que tomam conta dos netos quando os pais não podem. Inclusive, em Portugal cerca de 6,5 a 11% dos agregados familiares inclui um avô, não fosse este um dos países em que o círculo familiar de cuidados faz parte da própria cultura.3

Desta forma, coloco a minha última e verdadeira questão: “Quais são as consequências, para os avós, deste papel que desempenham na sociedade e na família?”

Foram sugeridas consequências positivas relacionadas com melhor saúde física, independentemente de doenças pessoais prévias; melhor saúde mental, relacionado com menor solidão e sintomas de depressão; e até diminuição do risco de demência, relacionado com a criação de uma “ponte” para a sociedade, atividades diárias e compromissos que estimulam a sua função cognitiva.4

O avô pode ansiar por esta fase da vida e encarar o papel como algo positivo e entusiasmante. Contudo, o contrário pode acontecer. A fase em que os seus filhos saem de casa e constroem a sua própria vida pode ser aguardada pelos avós para recomeçarem a olhar para os próprios planos. Voltam a ter tempo para eles, podem querer realizar aquilo que adiaram. O que acontece nesta situação? Se o avô tem que ficar a tomar conta do neto porque é o esperado/necessário? Ou então, ainda que seja uma função que aceite e deseje, o que acontece se o papel de avô se tornar o papel de pai? Se as horas de cuidar do neto forem tantas que não tem tempo para si próprio?

Apesar de vantagens, os estudos são controversos no que respeita a função cognitiva e desenvolvimento de demência. Alguns sugerem que avós que tomam conta dos netos têm menor pontuação em testes cognitivos e apontam até para um limite no benefício que esta atividade traz aos avós.5

A exigência do cargo sentida por eles é maior, o que pode estar associado a uma sobrecarga psicológica negativa.

Como médicos de família, devemos conhecer o nosso utente avô: toma conta dos netos? É uma atividade que gosta e que lhe traz prazer? Quantas horas por dia o faz? Será demasiado? Como se adapta a este novo papel?

Não existem normas, não existem guidelines, cada caso deve ser analisado de forma individual. Assim, e em jeito de conclusão, talvez devesse ter começado este texto como “O que representamos nós, netos, para os avós?”

Referências Bibliográficas:

  1. avós in Dicionário infopédia da Língua Portuguesa [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2020. [consult. 2020-09-14 19:54:57]. Disponível na Internet: https://www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/avós.
  2. Michael M. Long-Term Effects of the Demographic Transition on Family and Kinship Networks in Britain. Population and Development Review. 2011;37(s1):55-80.
  3. Albuquerque PC. Grandparents in multigenerational households: the case of Portugal. European Journal of Ageing. 2011;8(3).
  4. Di Gessa G, Glaser K, Tinker A. The Health Impact of Intensive and Nonintensive Grandchild Care in Europe: New Evidence From SHARE. The Journals of Gerontology Series B: Psychological Sciences and Social Sciences. 2016;71(5):867-79.
  5. Choi M, Sprang G, Eslinger JG. Grandparents Raising Grandchildren: A Synthetic Review and Theoretical Model for Interventions. Family & community health. 2016;39(2):120-8.
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