Covid-19, a ponta do iceberg?
Resumo: A atual pandemia causada pela Covid-19 constitui a sexta vez que a OMS declara emergência de saúde pública. Quais as razões que explicam a dicotomia entre o aumento do número de surtos a que temos assistido na última década e a progressão exponencial do conhecimento médico e do avanço tecnológico? Que fatores estão na génese dos surtos? Dispomos de armas terapêuticas suficientemente avançadas para os controlarmos?

Vivemos atualmente, a nível mundial, um momento histórico na consequência da pandemia provocada pelo novo coronavírus (2019-nCoV ou nCoV), um dos sete coronavírus humanos. Os primeiros casos, desta doença, foram divulgados no último dia do mês de dezembro de 2019, na cidade de Wuhan. Passado um mês, em 30 de janeiro deste ano a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou que, este surto, constitui uma Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional o que, oficialmente, traduz um evento extraordinário que constitui um risco de saúde pública para outros estados através da disseminação internacional de doenças e por potencialmente exigir uma resposta internacional coordenada, segundo o Regulamento Sanitário Internacional da OMS. A decisão representa a sexta vez que a OMS declara emergência de Saúde Pública internacional em relação a um surto. Atualmente a epidemia já chegou a praticamente todos os países do mundo, ultrapassando os 25 milhões de casos em todo o mundo e provocou a morte a mais de 800 mil pessoas.

Contudo, o novo coronavírus, responsável pela morte de cerca de 1% dos infetados até então, parece ser menos letal do que outras doenças com origem no coronavírus, que protagonizaram conhecidos surtos como a síndrome respiratória aguda grave (9.5%) e a síndrome respiratória do Médio Oriente (35%).

Segundo a agência Reuters, só na última década foi declarada emergência de saúde pública em cinco momentos: em 2009 a propósito do vírus H1N1, em 2014 decorrente do ébola no Oeste de África, em 2014 com o aumento de casos de poliomielite em 10 países, em 2016 com o vírus Zika no Brasil e em 2019 com o ébola na República Democrática do Congo. Temos assistido a um incremento de surtos de vírus ao longo dos últimos anos paradoxalmente à progressão exponencial do conhecimento médico e avanço tecnológico. Que razões podem explicar tal dicotomia?

Por um lado, o acentuado crescimento demográfico que temos verificado nas últimas décadas e o consequente aumento da concentração de pessoas em espaços menores pressupõe um risco acrescido de exposição a patogéneos causadores de doença. Segundo dados da Organização Nações Unidas (ONU), em 1950 existiriam 2,5 biliões de pessoas em todo o mundo, em 2000 seriam seis biliões e em 2020 são já mais de sete biliões os habitantes do planeta Terra. Sabemos que mais de quatro biliões de pessoas ocupam apenas 1% da massa terrestre do planeta. Tendo o coronavírus uma transmissão através de gotículas respiratórias, contato direto com secreções infetadas, a proximidade entre pessoas parece-me constituir um robusto fator que favorece o contágio vírico. Vejamos o caso do vírus Zika, apesar de ser transmitido pelo mosquito Aedes aegypti, a proximidade parece constituiu um pilar crucial para a disseminação dos surtos pois os mosquitos reproduzem-se mais em locais com maior densidade populacional.

O mecanismo que me parece, no entanto, ter maior repercussão no aumento dos surtos tem a ver com a circulação. O rápido e massivo trânsito de pessoas constitui um poderoso rastilho para a propagação de epidemias. Durante o ano de 2019, as companhias aéreas transportaram cerca de 4,5 biliões de passageiros. Wuhan é a principal estação ferroviária de alta velocidade da China e o surto de Coronavírus surgiu quando a China se preparava para realizar a maior migração humana da história, a propósito das comemorações do Ano Novo Chinês. Face ao exposto facilmente encontramos a razão que pode explicar a localização do epicentro deste surto.

Um outro fator que me parece relevante prende-se com o facto de 75% das novas doenças serem zoonóticas (transmissão ao ser humano por animais), onde se inclui o ébola, a síndrome respiratória aguda grave e o coronavírus. A produção animal está em rápida expansão propiciando o consumo de dietas ricas em carne. Na China, os mercados de carne e de animais vivos são comuns em áreas densamente habitadas e parece que o novo coronavírus teve a sua origem num mercado em Wuhan.

Por último, mas a meu ver não de menor importância, a contenção do surto está dependente da resposta dos sistemas locais de saúde, se não vejamos durante o surto do ébola, quando a Guiné, a Serra Leoa e a Libéria deixaram de conseguir dar resposta médica, o número de infetados pelo vírus aumentou exponencialmente, chegando a provocar a morte de cerca de 11.310 pessoas em África, mesmo tratando-se de um vírus com propagação lenta. Os países em desenvolvimento, com sistemas de saúde mais carenciados (em recursos humanos e materiais), com falta de condições sanitárias básicas, com défices na educação da população e paradoxalmente com elevada densidade populacional, constituem terrenos férteis para a propagação de epidemias.

Atualmente, apesar do aumento de surtos, o número de mortes por eles provocadas é menor; desenvolvem-se tratamentos mais eficazes, mas sobretudo investe-se na educação da população para a prevenção. Dirijo o meu foco neste sentido: a arma terapêutica mais eficaz para o controlo dos surtos é a literacia em saúde com particular ênfase na dimensão preventiva.

Concluo, em jeito de reflexão, o crescimento da economia conduz à melhoria de prestação de cuidados de saúde, e enunciando Fernando Pessoa “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”, tornando possível a concretização da utópica construção de um hospital com cerca de mil camas em apenas uma semana, não descurando, na minha opinião, a urgência em tomar medidas e implementar regulamentos com o propósito de protegermos o nosso planeta.

Bibliografia:

  1. Coronavirus Disease (COVID-19) Dashboard, data last updated: 2020/9/15
  2. Statement on the second meeting of the International Health Regulations (2005) Emergency Committee regarding the outbreak of novel coronavirus (2019-nCoV)
  3. United Nations. The 2019 Revisionof World Population Prospects 
  4. IATA - International Air Transport Association. IATA Statistics Product Guide 
  5. 2013. World Livestock 2013 – Changing disease landscapes
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Editorial | Jornal Médico
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