PAP-COVID: A resposta local a um problema mundial
DATA
19/10/2020 12:52:11
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Jornal Médico
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PAP-COVID: A resposta local a um problema mundial

Devem os Sistemas de Informação em Saúde ser centralizados ou descentralizados? Esta é uma das questões que divide e mantem acesa a discussão entre os peritos em Tecnologia da Informação em Saúde. Iremos desenvolver as vantagens da descentralização, baseados na experiência aa Unidade de Saúde Pública do ACES Pinhal Litoral.

Os sistemas centralizados têm vantagens evidentes já que são, geralmente, mais económicos, mais fáceis de manter e de implementar. Além disso, permitem a rápida partilha e centralização da informação, impedindo a criação dos chamados “Data Silos”, partes do sistema onde são acumulados dados inacessíveis às outras partes da rede. O SINAVE, o SICO e o Trace COVID-19 são exemplos de sistemas centralizados, com os quais os utilizadores oriundos dos hospitais, centros de saúde, unidades de saúde pública (USP), laboratórios, entre outros, colaboram na criação da informação a nível local e regional, alojada numa base de dados central sob a responsabilidade da Direção-Geral da Saúde (DGS).

Este tem sido o paradigma da maioria dos sistemas de informação em Saúde Pública, com reconhecido sucesso tanto nacional como internacional e que permitiram a Portugal dar um enorme salto quantitativo e qualitativo na informação disponível. No entanto, existem duas grandes desvantagens que, nas condições certas ou erradas, podem comprometer a viabilidade de um sistema totalmente centralizado: são muito inflexíveis e quando falham, tendem a falhar catastroficamente, afetando toda a estrutura. Foram precisamente estas duas características que levaram ao “colapso” do SINAVE no início da pandemia Covid-19: o SINAVE não foi desenhado para lidar com as especificidades de uma pandemia e não dispunha de flexibilidade necessária para poder ser adaptado à realidade e necessidades locais e regionais; além disso, não estava preparado para gerir um volume tão grande de dados e de utilizadores, tendo as falhas do sistema repercussão por todo o país.

Estes problemas tiveram um impacto especialmente pernicioso nas USP. Subitamente, em detrimento das atividades correntes, estas viram-se obrigadas a concentrar toda a sua atenção na pandemia que, muito rapidamente, se alastrava pelo mundo, sem dispor de processos e sistemas de apoio à recolha de informação e vigilância epidemiológica. Concomitantemente com essa fragilidade, confrontaram-se com a solicitação de informação, cada vez mais exigente, por parte da tutela, das autarquias, das organizações locais e mesmo da população.

A USP do ACES Pinhal Litoral não foi exceção. Como tantas outras, deparou-se com a necessidade de manter os próprios registos, numa folha de cálculo partilhada entre os profissionais, para a gestão de casos e elaboração de estatísticas simples, que permitissem a monitorização genérica da situação epidemiológica na região. Contudo, muito rapidamente o Excel deixou de dar resposta já que o ficheiro cresceu exponencialmente, tornando-se lento e acumulando erros, obrigando a uma manutenção morosa e entediante, situação que se agravou proporcionalmente ao aumento dos pedidos de informação oficial -  relatórios sobre profissionais infetados, lares, proteção civil, forças de segurança, dados cumulativos para a DGS e DSP, entre outros. Esta situação forçou vários profissionais da USP à dedicação quase exclusiva a essas tarefas repetitivas.

Foi neste contexto que surgiu a PAP-COVID, a plataforma do ACES Pinhal Litoral para a Covid-19 (figura 1). Esta plataforma tem como objetivos:

  1. reduzir o tempo despendido na criação, gestão e validação dos casos, pela automatização dos processos já existentes na unidade;
  2. melhorar a qualidade da informação, através da redução dos erros suportada na validação da introdução dos dados e na auditoria da informação;
  • aumentar a acessibilidade local à informação, contribuindo para um correto diagnóstico da situação epidemiológica na região.

A PAP-COVID assenta numa base de dados SQL alojada na cloud da Microsoft, cedida pelo Politécnico de Leiria e alimentada por um formulário de introdução de utentes no sistema baseado no Microsoft Forms. A migração inicial da folha de cálculo Excel existente, para uma verdadeira base de dados, foi fundamental, não só para dar resposta ao número crescente de casos, mas também para garantir a integridade dos mesmos e a integração em tempo real com as ferramentas do Office 365, já contratualizadas pelos SPMS: Microsoft Forms, PowerApps, PowerBI e PowerAutomate.

Com o PowerAutomate foi possível automatizar muitos dos processos identificados no workflow, que naturalmente emergiu na unidade, melhorando a gestão de tempo dos profissionais, libertando-os para outras tarefas prioritárias. A título de exemplo, as tarefas repetitivas como a criação e gestão dos Certificados de Isolamento Profilático passaram a ser feitas de forma automática, o mesmo acontecendo com o Reporte para as Forças de Segurança, que disponibiliza a listagem de todos os utentes em isolamento. Além disso, permitiu criar avisos automáticos personalizados, enviados diretamente para o email dos utilizadores responsáveis pelos casos, com indicação dos testes pendentes, fim de vigilância, entre outros. Devido à flexibilidade do sistema, foi possível adaptá-lo e automatizá-lo facilmente para acometer novos pedidos de listagens e reportes por parte das entidades e das decorrentes das necessidades da USP.

O PowerApps possibilitou, de forma fácil e intuitiva, interagir e atualizar a informação de cada utente. Enquanto que, com o PowerBI ligado diretamente à Base de Dados, passou a ser prática corrente a criação de relatórios e dashboards automáticos e atualizados em tempo real, garantindo o acesso local e instantâneo à informação de forma individualizada ou agregada, por área geodemográfica.

Por último, com acesso direto à Base de Dados em SQL tornou-se possível responder a perguntas complexas de forma fácil, direta e em tempo útil (figura 2). Por exemplo:

  1. quantos casos, correspondentes a utentes do sexo feminino, foram dados como curados entre a data X e Y na Freguesia Z?
  2. quantos utentes foram infetados por utentes positivos assintomáticos?
  • quantos utentes, que tiveram contacto com um caso positivo 2 ou mais dias antes destes últimos desenvolverem sintomas, vieram a revelar-se casos confirmados?

Além da clara vantagem para a investigação e diagnóstico de situação, potenciou o desenvolvimento de ferramentas de auditoria interna e externa, que garantiram a alta qualidade e fiabilidade dos dados. Tornou-se possível comparar diariamente os dados da Base de Dados, com extrações do SINAVE-Med, SINAVE-Lab e Trace COVID-19, garantindo a atualidade da informação e que todos os casos identificados nas plataformas centralizadas fossem considerados a nível local.

Futuramente, com a integração da informação do SINAVE, acreditamos ser possível automatizar mais funções, auxiliando na notificação e elaboração dos Inquéritos Epidemiológicos, bem como nas tarefas da plataforma Trace COVID-19.

Contudo, a grande mais-valia da PAP-COVID não é a sua estrutura de programação, nem sequer a sua escalabilidade ou flexibilidade para se adaptar a novos desafios, apesar destes serem, sem dúvida, pontos fortes em qualquer plataforma. A grande mais-valia é a filosofia do seu desenvolvimento, já que está vocacionada para responder às necessidades específicas da unidade onde nasceu e onde todos contribuíram, e contribuem, para a sua construção. A PAP-COVID é o exemplo da grande vantagem em, utilizando as ferramentas disponíveis, criar soluções “in-house”, descentralizadas e ajustadas à realidade local. A partilha da plataforma com outras unidades, como com o ACES Baixo Vouga, ACES Loures-Odivelas ou ACES Amadora, onde serviu de base para a implementação de soluções locais, mostra que este tipo de abordagem tem aplicabilidade em vários contextos e é replicável.

Finalmente, assentes na nossa prática diária, com a utilização das tecnológicas disponíveis, temos evidência que é eficiente a construção de ferramentas locais, facto que nos obriga a lançar o desafio de repensar o paradigma dos sistemas de informação em Saúde Pública, que estão ainda numa fase embrionária, mas que constituem o suporte para a deteção, gestão e monitorização das pandemias.

O novo normal e a nova realidade – que alterações provocadas pela pandemia vieram para ficar?
Editorial | Jornal Médico
O novo normal e a nova realidade – que alterações provocadas pela pandemia vieram para ficar?
Acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho. Encontrar uma nova visão e adotar uma nova estratégia útil na nossa prática clínica quotidiana. Valorizar as unidades de saúde por estarem a dar as respostas adequadas e seguras é o mínimo que se exige, mas é urgente e inevitável um plano de investimento nos centros de saúde do Serviço Nacional de Saúde.

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