Portugal já tem médicos a mais!
DATA
19/10/2020 15:39:36
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Jornal Médico
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Portugal já tem médicos a mais!
Achamos que, neste momento, a criação deste curso [de Medicina na UCP] não é oportuna, sendo que já existem oito escolas de Medicina a nível nacional.

Somos o 8.º país que mais forma médicos na OCDE sendo que, segundo os cálculos estabelecidos internacionalmente, deve existir uma escola médica por cada dois milhões de habitantes. Ora sendo assim, Portugal necessitava apenas de cinco faculdades, tendo já ultrapassado largamente esse valor. Não há falta de médicos, pelo contrário, já há é médicos a mais. O número de médicos indiferenciados [que não conseguem concorrer à especialidade por falta de vagas] é crescente.

Partindo do princípio que o curso de Medicina da UCP é um curso caro e que se está a criar um curso para abrir mais vagas para estudantes que vão ficar sem saída profissional, consideramos não ser adequado nem correto, daí ter dado um parecer negativo, tal como foi o da Ordem dos Médicos (OM) e o da Associação Nacional de Estudantes de Medicina (ANEM). Quem tem de decidir é a A3ES, que tomou a decisão de aprovar, mas estamos em total desacordo.

Tenho também a dizer que o projeto em si é um projeto fraco. Aliás, esse foi um parecer escalpelizado pela OM, que coloca várias fragilidades ao projeto. Para fazer uma faculdade de Medicina existem várias características que não nos parece que estejam a ser cumpridas na proposta da UCP. Mas, essa é uma avaliação que compete a quem tem essa responsabilidade.

Esta é uma proposta fraca e que se baseia num conjunto de pressupostos – alguns que nem existem ainda – de pessoas que ainda nem sequer estão ligadas à UCP atualmente. Presume-se que estes docentes irão ser contratados… vislumbro, por exemplo, nomes de pessoas que têm contratos com outras universidades e, embora essa transferência seja possível, considero que todo o processo assenta numa base pouco sólida e pouco robusta.

Esta proposta está, simultaneamente, dependente de uma outra universidade estrangeira, uma espécie de sucursal da Universidade de Maastricht. Há docentes portugueses ligados ainda a outras instituições do ensino superior como a Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, o que não deixa de ser um pouco wishful thinking. Fala-se em edifícios que ainda nem sequer existem, fala-se em hospitais que pelas características que apresentam – pelo que conhecemos – nos fazem ter algumas dúvidas da sua capacidade formativa, comparativamente a um hospital universitário.

Porém, o que nos parece mais importante é a inoportunidade de estar a abrir mais escolas médicas em Portugal. Está a ser feito um investimento do país em pessoas que não vão ter saída profissional. No ano passado, 600 médicos não tiveram acesso à especialidade, portanto estes novos médicos ou imigram ou são contratados por agências de trabalho médico barato. E isto, pensamos, também é uma forma de proletarizar a Medicina e de tornar o médico cada vez mais barato e cada vez mais indiferenciado.

Portanto, há todo um conjunto de razões que nos parece, por um lado, não oportuno, estar a abrir novas escolas médicas – sendo que não há necessidade disso, pois apenas irá aumentar o contingente de médicos indiferenciados – e por outro lado, a própria proposta em si, que nos parece bastante fraca.

Relativamente ao que o percurso da Medicina em Portugal diz respeito, considero que este curso não vai ter qualquer impacto nenhum e acho até arrogante que os responsáveis pelo mesmo falem de um curso com características diferentes e modernas, esquecendo-se que a modernidade está na evolução que tem sido feita pelas universidades de Medicina.

Como representante das escolas médicas, não consideramos que esta seja uma boa medida. Não sendo para suprir uma necessidade portuguesa, considero que, no fundo, será para suprir um capricho e não nos parece que isto vá enriquecer nem o panorama médico, nem o ensino médico no nosso país. Foi este um dia negativo para a educação médica em Portugal.

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Editorial | Jornal Médico
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