A “janela terapêutica” do algoritmo em Medicina
DATA
26/10/2020 10:07:56
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Jornal Médico
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A “janela terapêutica” do algoritmo em Medicina
Numa apresentação científica, aquele tão aguardado diapositivo com o algoritmo é quase sempre o seu momento alto. De facto, atualmente os algoritmos multiplicam-se, tornando-se num valioso apoio à consulta médica e num verdadeiro fast track de estudo sobre alguns assuntos.

No entanto, há duas perguntas que impõe reflexão: Estaremos, como médicos, num processo de excessiva algoritmização do conhecimento e da forma como pensamos? Será esta a fase inaugural de um processo de substituição paulatina do médico por um computador, como alguns alvitram?

Atualmente, existe um imenso caudal de novos conhecimentos que afluem constantemente à prática médica. De uma sapiência quase enciclopédica e universal, o paradigma transitou para a capacidade do médico, em real-time, localizar, obter e mobilizar esse conhecimento, realizando o seu download para o sistema operativo cognitivo onde a análise e decisão clínica se produzem.

Vivemos inequivocamente numa vertigem do conhecimento, que pouco espaço deixa para a organização mental dos processos individuais de decisão para cada entidade clínica. Assim, a capacidade crítica, caraterística inerente à definição do cientista, parece ser uma realidade com cada vez menos espaço na praxis médica.

A atração pelo algoritmo advém não só do facto dele nos fornecer uma informação filtrada, acessível e de assimilação rápida, mas sobretudo porque nele vem já emulado o próprio processo de análise e decisão, permitindo uma clara economia de tempo e de recursos cognitivos. Em jeito de comparação, podemos dizer que o algoritmo é o conhecimento “pré-cozinhado”, fornecido com “manual de instruções”, pronto a consumir.

No entanto, a excessiva algoritmização do pensamento e do conhecimento em Medicina acarreta vários riscos, a começar pela excessiva categorização artificial dos cenários clínicos reais nas premissas que o algoritmo admite. Igualmente corre-se o risco de reduzir o médico a uma interface entre paciente e algoritmo, em que a função deste é a de “adquirir” as variáveis necessárias e introduzi-las no fluxo de análise embutido no próprio algoritmo.

Assim, a prática baseada em algoritmos deve ser realizada com a devida parcimónia, na dose certa, pois tal como um fármaco fora da sua janela terapêutica, também terá os seus efeitos nefastos: despersonalização da relação médico-doente, aplanamento das idiossincrasias individuais, parcelamento artificial do conhecimento e pré-condicionamento da decisão clínica.

No passado, alguns autores anunciaram que a profissão médica seria das primeiras a ser substituída por um computador; por agora, os algoritmos “correm” na rede neuronal dos médicos; amanhã algoritmos complexos poderão correr em cérebros de silício de um computador, determinando probabilidades, incorporando na rede de análise muitas mais variáveis do que aquelas com que conseguimos lidar, associados a  sistemas de aquisição de variáveis biológicas e fisiológicas em tempo real; um grupo de algoritmos informáticos recentemente criados para autoadministração pelos utilizadores de uma seguradora norte americana conduziram a uma taxa de concordância diagnóstica entre o resultado devolvido pelo sistema e conclusão do médico na ordem dos 85%.

Não estamos aqui a fazer o combate à algoritmização do conhecimento, antes pelo contrário. Ele é bastante útil como forma de organizar a informação e o conhecimento num fluxo coerente e lógico. Como afirmou Lloyd Dean, um professor de Medicina de Stanford, “a questão não é se seremos substituídos por algoritmos, mas sim de que forma poderemos tirar vantagens destes para um melhor cuidado aos nossos pacientes”. Em última análise, o resultado devolvido por um qualquer algoritmo, informático ou não, terá sempre de ser validado pela expertise insubstituível do médico que o aplica.

Mas a Medicina é também relação, confiança e respeito pela Pessoa, que nenhuma máquina ou algoritmo poderá replicar. Não é possível uma Medicina sem a humanização da experiência da doença ou dos processos de saúde. É importante não esquecermos que os médicos “processam” seres humanos, conteúdo bastante diferente daquele que é capaz de ser processado por “máquinas” algoritmizadas.  

Num tempo em que a tendência é a de virtualizar e transplantar o mundo, as relações, as decisões e o próprio pensamento para um computador, talvez nunca tenha feito tanto sentido como agora voltar a pensar a Medicina desde a sua raiz, mergulhar na densidade dos parágrafos de um texto médico, projetar esse conhecimento na prática única e insubstituível de cada um, que faz com que cada médico seja ele próprio uma partícula imprescindível e única do conhecimento imenso de que a Medicina é tanto detentora como geradora.

Referências

  1. Minor, Lloyd; Will doctors be replaced by algorithms? Artigo na Web acedido a 7/10/2020 em https://scopeblog.stanford.edu/2018/09/11/will-doctors-be-replaced-by-algorithms/
  2. Koren, Gideon MD, Souroujon, Daniel MD; Shaul, Ran BASc; Bloch, Allon MBA; Leventhal, Ariel BSc;Lockett, Jason MD; Shalev, Varda MD;“A patient like me” – An algorithm-based program to inform patients on the likely conditions people with symptoms like theirs have, Medicine: October 2019 - Volume 98 - Issue 42
  3. Google will soon diagnose your illness in search results. Artigo na Web acedido a 7/10/2020 em https://www.wired.co.uk/article/google-medical-symptoms-search-results.
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