Posso por “stand-by” no Internato?

Era esta a pergunta que pairava (e paira) incessantemente no meu pensamento. Não no início. No início, não houve tempo nem lugar para pensar no Internato.

Sabíamos o que nos podia esperar e vimos a nossa vida profissional (e pessoal) ser posta à prova. A crise de saúde pública que a Covid-19 provocou levou a grandes mudanças na forma como trabalhamos e interagimos com os utentes, sobretudo nos cuidados de saúde primários (CSP), que tanto primam por ser os cuidados de proximidade. Os médicos de família (MF) apresentaram-se como peças fundamentais no sistema de saúde agora estabelecido. Ao realizarem o acompanhamento diário de casos confirmados e suspeitos de Covid-19 com sintomas ligeiros a moderados, que ficaram em autocuidados no domicílio, permitiram ver diminuída a afluência aos serviços de urgência e, não menos importante, uma referenciação atempada dos doentes que desenvolvessem sintomatologia grave.

A palavra de ordem era “reorganizar” e, como é sabido, foram enviadas diretrizes aos agrupamentos de centros de saúde (ACES) no sentido de criarem circuitos diferenciados. Apercebi-me através de grupos de partilha com colegas (sim, porque não me lembro de ter havido outra situação em que tantos “grupos” de conversação entre profissionais fossem criados para troca de ideias…) que a forma como cada um se organizou foi diferente. Não houve e penso que, ainda hoje, não há uma forma “perfeita” de reestruturar um serviço de saúde perante uma pandemia, pois há sempre um grupo, uma faixa da população, um utente que seja, que naquele momento não pode ver o seu pedido respondido, perante a contingência em que trabalhamos. Porém, a forma como foi conduzida essa reestruturação inicial no local que tem acolhido a minha formação atualmente – ACES Barcelos/Esposende, posso dizer que foi, no meu ver, um exemplo de trabalho de equipa e perseverança. Foi tempo de adaptações, de realizar consultas pelo telefone, mas também de estar na linha da frente, de vestir equipamentos de proteção individual e ostentar as respetivas marcas… Mas, foi tempo também de conhecer outros colegas, que em outras circunstâncias nunca chegaria a conhecer. Colegas esses de quem agora sinto saudades e que irão marcar para sempre esta fase do internato (e da forma mais bonita, talvez o único aspeto bom desta pandemia que nos assola…).

E o Internato? Pois, foi sobre ele que comecei este texto. Passados dois meses de colaboração com o ACES nas atividades “Covid”, fomos mobilizados de novo para a nossa unidade de origem. Foi nessa altura que me apercebi da quantidade de trabalho curricular que ficou em “stand by”, de todos os planos existentes para estudos de investigação, estudos de melhoria da qualidade, muitos deles já aprovados, e que foram forçados a ficar na gaveta. E porque o currículo não diz respeito só a trabalhos realizados, mas também a qualidade e quantidade de consultas efetuadas, houve uma redefinição forçada dos números a cumprir. Uma parte considerável da consulta presencial deu lugar a consulta telefónica, o que necessariamente leva a grandes mudanças no planeamento de um estudo da consulta do interno.

Alguns colegas poderão não concordar comigo, mas na minha opinião era legítimo, e arrisco-me a dizer justo, existir um adiamento das datas de avaliação de final de especialidade. Porque na verdade, eu e muitos dos meus colegas de formação carregámos no “stand by”, no que ao Internato diz respeito. Porque éramos (e somos!) necessários, porque fomos número efetivo em contribuição para com o nosso ACES, porque não quisemos dizer que não, quando nos foi pedido auxílio. E porque quando voltamos “à base”, a pandemia não desapareceu, e continuamos a dar o nosso contributo. Se podia ter programado a minha formação atempadamente, não sobrecarregando o último ano de Internato com algumas tarefas curriculares e tê-las realizado antes? Podia, mas na verdade, nada faria prever este problema de saúde pública que tanto nos inquieta…

O novo normal e a nova realidade – que alterações provocadas pela pandemia vieram para ficar?
Editorial | Jornal Médico
O novo normal e a nova realidade – que alterações provocadas pela pandemia vieram para ficar?
Acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho. Encontrar uma nova visão e adotar uma nova estratégia útil na nossa prática clínica quotidiana. Valorizar as unidades de saúde por estarem a dar as respostas adequadas e seguras é o mínimo que se exige, mas é urgente e inevitável um plano de investimento nos centros de saúde do Serviço Nacional de Saúde.

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