Não cuidamos "invisíveis”

Num tempo em que muito se fala de números e pouco de pessoas fizeram-me este desafio.

Uma grande amiga, depois de ter o pai doente e de recorrer com frequência aos serviços de saúde, um dia disse-me: “Senti-me invisível, falavam da quantidade de álcool gel que as pessoas gastam indevidamente, enquanto eu tentava explicar o que nos tinha levado ao serviço de urgência, qual a medicação que o meu pai toma diariamente, que normalmente é uma pessoa ativa apesar das duas doenças crónicas e do estado atual. A sensação que tive é que nada do que disse foi ouvido ou registado. Como podem cuidar do meu pai, se nada sabem sobre ele? Por favor faz qualquer coisa, escreve a falar sobre isto…. Não compreendo o que se passa com os profissionais de saúde, estão desmotivados, é isso? Deviam ter melhores vencimentos? Estão cansados? Não se sentem valorizados? Trabalham muito? Gostavam de ter melhores condições?”

Respondi-lhe que era um pouco de tudo isso, mas não lhe consegui responder foi ao motivo que leva os profissionais a colocarem doentes e famílias na “classe dos seres invisíveis”.

Por acreditar que todos queremos o melhor para os nossos doentes e me parecer que vale a pena olharmos para a nossa prática, resolvi escrever, aquilo que pretendo ser apenas uma reflexão.

A desumanização dos cuidados de saúde é um tema sobejamente debatido, mas acredito que, a atual situação exige uma nova reflexão. As circunstâncias mudaram e tiveram um impacto incalculável no comportamento dos seres humanos. Será que cada um de nós já parou para pensar sobre esta nova forma de estar enquanto profissional de saúde?  Como nos devemos comportar? Como reagir face à quase ausência de contacto físico entre profissionais e doentes? Como reagir face à solidão vivida pelos doentes nas instituições de saúde? Como minimizar este sofrimento acrescido que a pandemia trouxe à vida dos que cuidamos?

Estamos desmotivados, cansados, perturbados por uma situação que ninguém sabe como deve e pode ser vivida, sentimos que ninguém valoriza o esforço diário que fazemos, as milhares de horas extraordinárias, as más condições em que trabalhamos, as muitas situações em que abdicamos da nossa vida para cuidar de quem de nós precisa, mas nada pode justificar que deixemos de olhar para os nossos doentes e para as suas famílias, com a atenção e o cuidado que cada um possa requerer.

Muitas vezes somos exatamente o que se espera de nós e ainda mais. Cuidamos, confortamos e olhamos para os doentes em todas as suas vertentes, alicerçamos a prática clínica na beneficência, não maleficência, justiça e autonomia. Contudo também parecem existir dias, em que os doentes e famílias se sentem invisíveis aos nossos olhos.   

Num tempo em que as visitas são poucas ou nenhumas e a informação que chega aos familiares é quase nula, o medo de levar um doente com multipatologia, polimedicado, com doença incurável para o serviço de urgência é aterrador. Tão aterrador que se mantêm em casa doentes com indicação para serem observados, até ao perigoso limite de colocar os mesmos em risco de vida. O desejo de proteger os que gostamos de um sistema de saúde cansado, sem capacidade de reagir, sem possibilidade de olhar para cada história como única, por falta de tempo e de energia, leva cada família a equacionar ser ela a prestar cuidados, quando os cuidados de que o doente precisa vão muito para além das suas capacidades e exigem competências técnicas.

Doentes e famílias não se podem sentir invisíveis e inseguros. Numa época em que os doentes perderam, dentro das instituições, os seus melhores advogados, os cuidadores, o sistema de saúde tem de ser capaz de transmitir a segurança, que permite às famílias deixar pai, avó, irmão, com a certeza que será cuidado tendo em conta as suas características particulares. Que os profissionais o irão ouvir quando chamar, que a medicação crónica será administrada, que a solidão da institucionalização será minimizada pela atenção disponibilizada por todos os que cuidam.

A quase ausência de toque, a linguagem não verbal ameaçada pelos equipamentos de proteção individual, o sorriso tapado, que apenas se adivinha pelo olhar, transformam as instituições em locais hostis, fragilizam doentes e profissionais, enfraquecem as relações que se criavam através dos muitos gestos que foram banidos da sociedade e do cuidar. Como estamos a reagir? Adequámos a nossa prática para manter a humanidade presente? Ou a preocupação em protegermos os nossos doentes, as nossas famílias e a nós próprios, tornou invisíveis aqueles que deveriam ser o foco da nossa atenção?  

Vivemos tempos muito difíceis, para todos, doentes, famílias e profissionais, mas continuamos a ter em comum, pertencermos à “classe dos muito visíveis”, seres humanos, que se olham, escutam, tocam, comunicam e têm o dever de cuidar uns do outros, para sobreviverem enquanto humanidade.

Mas para que tudo isso aconteça não podemos continuar a ter profissionais que pela exaustão de anos de trabalho sem condições, agravados de uma forma sem precedentes por esta pandemia, continuam a prestar cuidados sem o apoio de um sistema que teima em oferecer os mínimos, quando em saúde os máximos são obrigatórios.

O novo normal e a nova realidade – que alterações provocadas pela pandemia vieram para ficar?
Editorial | Jornal Médico
O novo normal e a nova realidade – que alterações provocadas pela pandemia vieram para ficar?
Acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho. Encontrar uma nova visão e adotar uma nova estratégia útil na nossa prática clínica quotidiana. Valorizar as unidades de saúde por estarem a dar as respostas adequadas e seguras é o mínimo que se exige, mas é urgente e inevitável um plano de investimento nos centros de saúde do Serviço Nacional de Saúde.

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