"Responsabilidade é o melhor remédio"

Colegas, nesta semana dedicada ao antibiótico, se me permitirem gostaria de vos contar um pouco da minha história com estes fármacos.

Sou médico de família (com uma perninha em farmacologia pois licenciei-me em ciências farmacêuticas) e sempre tive interesse neste fantástico grupo farmacológico.

Pensava que os usava de forma criteriosa, mas nos últimos 3 anos dediquei-me mais e verifiquei que fui durante vários anos, um prescritor excessivo de antibioterapia (reduzi para metade!).

E como cheguei a esta conclusão? Com formação e monitorização. Numa primeira fase até fiquei incomodado com os dados, mas é minha responsabilidade partilhar os erros e as soluções, para que possamos todos zelar por este bem precioso que é o antibiótico.

Vou apenas abordar a antibioterapia em ambiente de ambulatório. Somos um país ainda com elevada dose diária definida (DDD) e com um rácio de largo espectro/curto espectro também elevado, o que naturalmente resulta e resultará em taxas elevadas de resistências.

Comecei por fazer o curso online da OMS : Antimicrobial Stewardship: A competency-based approach  (https://openwho.org/courses/AMR-competency) e os módulos alertaram-me para a minha prática. Identifiquei imediatamente algumas práticas a melhorar. Alguns conceitos desconhecidos e a importância desde assunto.

Passei também a monitorizar de forma mais regular os indicadores de antibioterapia da USF e também do ACES. A prescrição de quinolonas (2017.255.01 FL - Propor. quinolonas entre antib. fatur.) e de cefalosporinas (2017.257.01 FL - Propor. cefalosp. entre antib. fatur.)  está disponível na matriz de indicadores da plataforma BICSP. Como prescrevi em quinolonas em demasia! (potentes fármacos, grandes causadores de resistências e raramente o antibiótico de primeira linha nas infeções de ambulatório). Ao partilhar o perfil de prescrição por cada médico gerou-se imediatamente uma noção de que há práticas de atuação diferentes e que formação e uniformização são necessárias.

Em 2019, integrei a equipa gestora do Programa de Apoio à Prescrição de Antibióticos do ACES Baixo Vouga e mais atenção e preocupação coloquei no problema. Identificamos que tínhamos um nível de utilização de quinolonas superior à média nacional e da ARS Centro. A equipa decidiu duas linhas de atuação: formação (dirigida aos conselhos técnicos de todas as USF/USCP e médicos internos MGF) e envio do perfil de prescrição de quinolonas por médico e equipa, bem como orientação sobre a forma de obter e monitorizar este indicador no BICSP. Atualmente o ACES Baixo Vouga apresenta o valor mais baixo e estável deste indicador entre os 9 ACES que compõem a ARS Centro. Esta “consciência coletiva” em relação às quinolonas trouxe mudanças na prática clínica tendo-se verificado também melhoria no perfil global de prescrição: o rácio de largo espectro/curto, espectro reduziu bem como o número total de embalagens prescritas em relação ao ano anterior.  

E o que se passa na prescrição em ambiente ambulatório particular? Curiosamente temos elevadas taxas de prescrição de antibióticos, sendo privilegiados os de largo espectro. A necessidade de eficácia e pressão do cliente certamente que influenciam na tomada de decisão sobre a prescrição ao não de um antibiótico, bem como qual a sua classe. Muito há a trabalhar nesta área de prestação clínica.

Nesta semana do antibiótico reflitamos que é nossa responsabilidade adotar os “DEZ PRINCÍPIOS PARA UMA PRESCRIÇÃO RACIONAL DE ANTIBIÓTICOS” expressos na orientação técnica 029/2011 – Princípios gerais de antibioterapia.

A COVID19 veio aumentar a taxa global de prescrição de antibióticos!

Desta pequena partilha quero demonstrar que está ao alcance de todo o clínico, unidade de saúde, ACES, ARS, monitorizar, atualizar conhecimentos e melhorar, e claro reduzir a prescrição de antibióticos desnecessários.

A APMGF tem vindo a sensibilizar para esta temática ao longo dos anos e um dos exemplos recentes foi o apoio concedido à campanha “Responsabilidade é o Melhor Remédio”, uma iniciativa que tem como principal objetivo sensibilizar médicos, farmacêuticos e população em geral para a importância da utilização responsável do antibiótico através da disponibilização de milhares de materiais informativos nas farmácias e centros de saúde de todo o país.

Sejamos todos responsáveis por preservar o antibiótico!

O novo normal e a nova realidade – que alterações provocadas pela pandemia vieram para ficar?
Editorial | Jornal Médico
O novo normal e a nova realidade – que alterações provocadas pela pandemia vieram para ficar?
Acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho. Encontrar uma nova visão e adotar uma nova estratégia útil na nossa prática clínica quotidiana. Valorizar as unidades de saúde por estarem a dar as respostas adequadas e seguras é o mínimo que se exige, mas é urgente e inevitável um plano de investimento nos centros de saúde do Serviço Nacional de Saúde.

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