“A higienização nasal deveria ser considerada como medida de higiene básica”
DATA
19/11/2020 13:03:59
AUTOR
Dr.ª Joana Pedrosa, Dr.ª Daniela Lisboa, Dr. Nelson Rodrigues
“A higienização nasal deveria ser considerada como medida de higiene básica”
As patologias do foro otorrinolaringológico, particularmente as queixas nasossinusais, estão entre os motivos mais frequentes de consulta com o Médico de Família.

O nariz representa a “porta de entrada” para as vias aéreas, permitindo que o ar inspirado chegue em condições ideais aos pulmões, através da sua filtragem, aquecimento e humedecimento. Simultaneamente, as fossas nasais atuam como um sistema de alerta precoce para a presença de irritantes ou alergénios no ar, o aparecimento de sintomas de congestão nasal sugere inflamação da mucosa.

Como tal, tem justificação científica a irrigação nasal – uma prática antiga de tratamento das vias respiratórias superiores –, que consiste na lavagem das fossas nasais com uma solução salina, usada de forma isolada ou associada a outras terapêuticas. Em idade pediátrica, é frequentemente prescrita com intuito curativo e preventivo de infeções.1

O mecanismo de ação da irrigação nasal não é ainda totalmente compreendido. No entanto, vários autores atribuem a melhoria dos sintomas a diferentes efeitos fisiológicos, nomeadamente através da limpeza direta da mucosa nasal, pelo amolecimento e descolamento das crostas de muco, assim como pela redução de mediadores inflamatórios (como prostaglandinas e leucotrienos) e antigénios responsáveis por reações alérgicas.1,2 Adicionalmente, a irrigação nasal funciona como um facilitador da ação de tratamentos farmacológicos tópicos (como os corticosteróides, antibióticos e mucolíticos), ao promover uma melhor distribuição desses fármacos pela mucosa nasossinusal. 3

De acordo com uma revisão da Cochrane de 2007, os benefícios da irrigação nasal salina são superiores às suas desvantagens na maioria dos pacientes, podendo ser incluída como tratamento adjuvante no controlo dos sintomas da rinossinusite crónica e outras condições sintomáticas nasossinusais.4

Posto isto, tal como a higienização diária das mãos, a higienização nasal deveria ser considerada como medida de higiene básica. Tendo em conta o papel preventivo do Médico de Família, deverá fazer parte do trabalho do mesmo a promoção da implementação da higienização nasal diária no quotidiano dos utentes, preferencialmente logo desde a idade pediátrica.

Bibliografia:
1. Nicola Principi, N., Esposito, S. (2017). Nasal Irrigation: An Imprecisely Defined Medical Procedure. Int J Environ Res Public Health 14(5), 516. Consultado em julho, 2020 em https://doi.org/10.3390/ijerph14050516
2. Costa Lima, S., Campos Ferreira, A., da Silva Brant, T. (2015) Isotonic saline nasal irrigation in clinical practice: a literature review. Fisioter. mov. vol.30 no.3. Consultado em julho, 2020 em https://doi.org/10.1590/1980-5918.030.003.ar04
3. Barham, H.P., Harvey, R.J. (2015). Nasal saline irrigation: therapeutic or homeopathic. Braz J Otorhinolaryngol. 81:457-8. Consultado em julho, 2020 em http://dx.doi.org/10.1016/j.bjorl.2015.07.002
4. Harvey, R., Alam Hannan, S., Badia, L., Scadding, G. (2007). Nasal saline irrigations for the symptoms of chronic rhinosinusitis. Cochrane Systematic Review - Intervention. Consultado em julho, 2020 em https://doi.org/10.1002/14651858.CD006394.pub2

Dr.ª Joana Pedrosa*, Dr.ª Daniela Lisboa*, Dr. Nelson Rodrigues**
*Internas de Formação Especializada em Medicina Geral e Familiar - USF Vale do Vez
** Médico de Família – USF Arquis Nova

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