Covid-19 e a Saúde Mental… dos Profissionais de Saúde!

Tempo de pandemia é tempo de ansiedade, de luta, de união de esforços, de reorganização da sociedade e, a meu ver, é sinónimo de tempo para alguma reflexão sobre nós – o que somos, o que queremos, onde estamos e para onde vamos.

Como interna de Medicina Geral e Familiar a meses de terminar o internato, como recém-mamã, esposa, colega de trabalho, filha, amiga, etc., sinto que estamos num momento de parar e fazer um balanço, refletir sobre o que já foi feito, o que há para fazer e que perspetiva existe para o futuro.

Comemorou-se o Dia Mundial da Saúde Mental e, constata-se que ela é globalmente desconsiderada e maltratada. E, efectivamente, é!

O nosso sistema de saúde estava, antes da pandemia, a funcionar no seu limite, com os profissionais de saúde a fazer os possíveis (e impossíveis) para "segurar as pontas".

Hoje, com a crise em que vivemos, as fragilidades acentuaram-se e o sistema tende para o colapso! Este tem sido evitado por horas e horas de trabalho, entre consultas presenciais (nomeadamente a doentes diabéticos, hipertensos, grávidas e crianças), consultas telefónicas (para os utentes mais jovens, com menos doenças, mas que também merecem e precisam da nossa atenção), pedidos de medicação, de relatórios, de fisioterapia, pedidos infindáveis de contactos telefónicos, seguimento de doentes com Covid-19…um trabalho que simplesmente não acaba!

O maior prejudicado? Todos nós, profissionais e doentes…

Ao ritmo a que os médicos de família (apelidados ultimamente de preguiçosos e covardes) estão, neste momento, a exercer a sua atividade, sendo-lhes exigido sempre mais e mais, com os mesmos recursos de outrora (e até menos), chegaremos em breve ao limite do humanamente possível, com profissionais em pleno burnout - exaustos, desmotivados, frustrados, doentes, impulsivos, menos eficazes na execução das tarefas, com uma necessidade iminente de redefinir prioridades e com consequentes baixas ao serviço.

É certo que tempo de pandemia também é tempo de refletir sobre o que temos de bom – a importância das relações humanas, o sentido de responsabilidade, o espírito de equipa dos profissionais que juntam esforços em prol de um bem comum.

Mas será suficiente? Será que o que a pandemia trouxe de bom ultrapassa as amarguras?

Precisamos urgentemente de mais médicos, enfermeiros, secretários clínicos, precisamos de mais pessoas para trabalhar. O futuro é incerto, mas daqui para a frente, o número de doentes Covid-19 e não Covid-19 será previsivelmente em crescendo e, se não houver um mínimo de consideração pela saúde dos profissionais, teremos certamente uma diminuição da qualidade do seu desempenho, o que poderá pôr em causa a segurança dos doentes.

Findo este tempo de reflexão, paro e penso – estarei também eu em burnout?

A mudança necessária
Editorial | Jornal Médico
A mudança necessária

Os últimos meses foram vividos por todos nós num contexto absolutamente anormal e inusitado.

Atravessamos tempos difíceis, onde a nossa resistência é colocada à prova em cada dia, realidade que é ainda mais vincada no caso dos médicos e restantes profissionais de saúde. Neste âmbito, os médicos de família merecem certamente uma palavra de especial apreço e reconhecimento, dado o papel absolutamente preponderante que têm vindo a desempenhar no combate à pandemia Covid-19: a esmagadora maioria dos doentes e casos suspeitos está connosco e é seguida por nós.

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