Sou Interna de Medicina Geral e Familiar, e agora?
DATA
05/01/2021 17:51:27
AUTOR
Ana Rafaela Gave
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Sou Interna de Medicina Geral e Familiar, e agora?

Esta foi a pergunta que se apoderou de mim, no dia 15 de junho de 2018. Eram cerca das 15h e a escolha estava feita.

Entrei para o curso a saber aquilo que queria ser na Medicina, mas estava longe de imaginar a satisfação e a insegurança que ia sentir com esta especialidade.

Por um lado, conseguimos ter uma ligação mais próxima ao utente e à família, privilegiar a relação médico-doente, promover a capacitação, assegurar o acesso a todos os cuidados de saúde, ter uma visão a 3600 do utente e do problema. Por outro, passam por nós inúmeros sintomas, inúmeras patologias e tantas outras burocracias, que muitas vezes nos deixam em dúvida com aquilo que fazemos e sobre qual o melhor caminho a seguir.

E agora?

Faço este estágio ou será melhor outro? Peço este exame? Falta-me perguntar mais alguma coisa? Medico, não medico? Com que fármaco medico? Envio para a consulta da especialidade? Será melhor frequentar este workshop? Conseguirei escrever o meu relatório? Conseguirei cumprir a grelha de avaliação? Serei, algum dia, capaz de gerir uma lista de utentes sozinha? Serei uma boa Médica de Família?

Dúvidas, dúvidas e mais dúvidas, e agora?

Sou Interna de Medicina Geral e Familiar, e de forma a apaziguar este “e agora?”, refugio-me em duas afirmações. A primeira, de Sir Denis Pereira Gray, que nos diz “A Medicina Geral e Familiar é o trabalho mais fácil de se fazer mal feito e o mais difícil de se fazer bem feito”. Assim, cabe a cada um de nós, encontrar o equilíbrio e guiar o seu caminho, e para isso precisamos de tempo. Precisamos de experiência, de arriscar, de falar com os doentes. Precisamos de trabalhar a parte científica, mas acima de tudo, não esquecer de trabalhar a parte humana.

A segunda afirmação, e esta revelou-se mais essencial do que nunca nos tempos em que vivemos, de Ernest Hemingway “– Quem está ao teu lado nas trincheiras? – E isso importa? – Mais do que a própria guerra”.  Mais do que o sítio onde me encontro a fazer o internato - Norte, Sul, Centro, Ilhas - importa quem trabalha comigo. Importa quem está no gabinete ao lado e partilha a experiência de anos, importa quem me auxilia nos procedimentos, importa quem me ajuda na gestão e organização, importa quem permite que o doente encontre um gabinete adequado para o receber. Mais do que o sítio, importa quem me guia nesta jornada. 

Sou Interna de Medicina Geral e Familiar!

A insegurança vai estar lá sempre, mas é o que me faz querer saber mais.

A satisfação vai crescendo e é o que me faz querer ser melhor.

Sou Interna de Medicina Geral e Familiar e agora, não podia estar mais feliz!

Bibliografia

  1. Geral N, Familiar M, Europa W. A DEFINIÇÃO EUROPEIA ( CLÍNICA GERAL / MEDICINA FAMILIAR ). 2002;
A mudança necessária
Editorial | Jornal Médico
A mudança necessária

Os últimos meses foram vividos por todos nós num contexto absolutamente anormal e inusitado.

Atravessamos tempos difíceis, onde a nossa resistência é colocada à prova em cada dia, realidade que é ainda mais vincada no caso dos médicos e restantes profissionais de saúde. Neste âmbito, os médicos de família merecem certamente uma palavra de especial apreço e reconhecimento, dado o papel absolutamente preponderante que têm vindo a desempenhar no combate à pandemia Covid-19: a esmagadora maioria dos doentes e casos suspeitos está connosco e é seguida por nós.

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