Concluir no ano em que tudo se iniciou…
DATA
08/02/2021 09:20:51
AUTOR
Jornal Médico
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Concluir no ano em que tudo se iniciou…
Em janeiro de 2020 iniciei o quarto e último ano do meu internato de Medicina Geral e Familiar. Previa que este fosse um ano exigente. Previa que fosse um ano em que teria de colocar o máximo enfoque na minha autonomização profissional e na conclusão das tarefas curriculares. Estava longe de imaginar que uma pandemia irromperia pelas nossas vidas e condicionaria uma alteração tão profunda das mesmas. De repente, tínhamos de combater um inimigo invisível, do qual tão pouco conhecíamos. Deu-se uma reorganização total da nossa atividade diária e a consulta presencial programada foi suspensa quase na totalidade.

Quando voltaríamos a ter em consulta os nossos utentes diabéticos, hipertensos, idosos ou com multimorbilidade? Quando iríamos retomar os rastreios oncológicos? Multiplicavam-se as tarefas. A teleconsulta assumiu-se como o modo de contacto preferencial com os utentes. Esta tipologia de consulta, outrora residual na nossa prática, tinha-se convertido na forma mais eficiente de avaliar e orientar os utentes. Tive de aprender a desempenhá-la. Mas sentia falta de dois componentes essenciais: a linguagem não-verbal do doente e a possibilidade de realizar sempre exame objetivo. Reiterava-se a importância da colheita de uma história clínica completa e rigorosa, com enfoque nos sinais de alarme, com vista à minimização do erro e à prestação do melhor cuidado possível aos utentes.

O objetivo central era conter a propagação da pandemia enquanto se tentava minimizar o seu impacto na saúde dos utentes. Reinava a incerteza, a ansiedade e o medo, que tinham de ser espelhados para os utentes como segurança e confiança, de modo a alertá-los sem alarmá-los.

Como pensar no internato quando tudo estava envolto em incerteza? Os congressos foram cancelados ou adiados e a possibilidade de exposição dos trabalhos desenvolvidos reduziu-se. Como melhorar a gestão do tempo de consulta, quando a maioria das consultas presenciais programadas foram desmarcadas? Como aprimorar o desempenho numa consulta de um grupo de risco, se não as realizo? Atingirei o número mínimo de consultas exigido? Eram perguntas para as quais procurava incessantemente respostas, sem sucesso.

Em junho, com o número de casos sob controlo, iniciou-se o período de retoma nos Cuidados de Saúde Primários, no qual se procurou unificar as práticas pré-pandemia e a nova realidade, centrada na teleconsulta e na vigilância de casos suspeitos e confirmados de COVID-19. Nesta fase, as consultas programadas foram reiniciadas. Procurava-se atingir uma normalidade relativa, enquanto se preparava a chegada da segunda vaga da pandemia. Aqui, pude, apesar de sobrecarregada por todas as tarefas atribuídas aos Médicos de Família, voltar a pensar nas atividades curriculares… até que se instalou a segunda vaga.

Tem sido um ano mais difícil do que previa, de avanços e recuos, caracterizado pela incerteza e ansiedade, mas também pela unificação das equipas, pela sensação de pertença a uma causa maior e pela manifestação de carinho por parte dos utentes. De forma não convencional, o processo de autonomização acabou por se cumprir. Imperaram a capacidade de readaptação, de reinvenção e de superação. Acreditei que este seria o pior ano para concluir o internato, mas acabou por ser o ano no qual me senti mais capacitada para lidar com a pandemia e com toda a sua interferência na minha formação. Procurei dar o meu melhor, procurei priorizar os utentes, mantendo o foco e a esperança de que conseguiria concluir o internato no ano em que a pandemia se iniciou.

A "hiperventilação" dos Cuidados de Saúde Primários
Editorial | Joana Romeira Torres
A "hiperventilação" dos Cuidados de Saúde Primários
A Organização Mundial de Saúde alude que os Cuidados de Saúde Primários (CSP) são cruciais para a obtenção de promoção da saúde a nível global. Neste sentido, a Organização Mundial dos Médicos de Família (WONCA) tem estabelecido estratégias que têm permitido marcar posição dos mesmos na comunidade médica geral.

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