Vacinação anti-Covid – falsa esperança?
DATA
17/02/2021 09:12:25
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Jornal Médico
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Vacinação anti-Covid – falsa esperança?

A doença causada pelo coronavírus (Covid-19) afetou milhões de pessoas a nível mundial e o seu espetro pode variar desde infeções assintomáticas a quadros graves. De acordo com a Organização Mundial de Saúde, a maioria (cerca de 80%) dos pacientes com Covid-19 podem ser assintomáticos ou oligossintomáticos, e aproximadamente 20% dos casos detetados requer tratamento hospitalar, nomeadamente quando existe dificuldade respiratória (5% dos quais podem necessitar de suporte ventilatório).

Pela sua facilidade de transmissão, por via essencialmente respiratória, a infeção por Covid-19 tornou-se um desafio, tanto para os cuidados de saúde, pela sobrecarga dos mesmos, bem como para a economia mundial, pelo absentismo laboral e pelas restrições impostas nos vários países. Assim sendo, a pandemia teve uma importante influência negativa, tanto nos custos económicos, como nos “custos sociais”, pelo que foi feito um grande investimento na investigação do seu tratamento e prevenção, tendo sido unidos esforços para a criação de uma vacina eficaz.

A esperada vacina contra o Covid-19 foi anunciada pela Pfizer no início de novembro, mas com ela trouxe também muita desconfiança e dúvidas em relação à sua eficácia e segurança. A única vacina aprovada até ao momento é uma vacina de RNA modificada que codifica uma proteína de spike SARS-CoV-2 e foi capaz de demonstrar uma eficácia de 95% na prevenção da Covid-19, num regime de duas doses. Esta eficácia mostrou ser independente de fatores como a idade, raça, género e existência de comorbilidades pré-existentes.

Apesar disto, não existem ainda dados que confirmem a sua eficácia em segurança em crianças com idades inferiores a doze anos e grávidas, pelo que a sua administração não contemplará estes grupos. Além disto, os efeitos adversos registados mais comuns foram ligeiros a moderados, tais como reação tópica no local de imunização (84,1%), fadiga (62,9%), cefaleias (55,1%), mialgias (38,3%), artralgias (23,6%) e febre (14,2%). Os efeitos mais graves foram mais comuns em participantes mais jovens (4,6%) em relação a pessoas com mais de 55 anos de idade (2,8%)1.

A desconfiança que assenta na falsa premissa de que a vacina terá sido “apressada” é, na verdade, um reflexo dos esforços conjuntos da comunidade científica, que foi capaz de compartilhar dados e que desenvolveu os métodos subjacentes que permitiram a criação da mesma, dos milhares de participantes que se ofereceram para participar do estudo e dos governos que ajudaram a criar padrões de desempenho e um mercado para a vacina 2.

Por este motivo, na minha opinião, será imprudente da nossa parte, profissionais de saúde, desincentivarmos à vacinação e contribuirmos para a desinformação a respeito desta vacina que circula muitas vezes na comunicação social. Assim sendo, entendo que a administração da vacina pode contribuir, juntamente com outras medidas de saúde pública, para a redução da devastadora perda de saúde e bem-estar social e económico que resultou da disseminação global da Covid-19 e poderá permitir retomar alguma “normalidade” no nosso dia a dia enquanto profissionais de saúde e pessoas.

Bibliografia:

  1. Polack FP, Thomas SJ, Kitchin N, et al. Safety and efficacy of the BNT162b2 Covid-19 vaccine. N Engl J Med. DOI: 10.1056/NEJMoa2034577.
  2. Eric J. Rubin, Dan L. Longo. (2020) SARS-CoV-2 Vaccination — An Ounce

(Actually, Much Less) of Prevention. N Engl J Med.

A "hiperventilação" dos Cuidados de Saúde Primários
Editorial | Joana Romeira Torres
A "hiperventilação" dos Cuidados de Saúde Primários
A Organização Mundial de Saúde alude que os Cuidados de Saúde Primários (CSP) são cruciais para a obtenção de promoção da saúde a nível global. Neste sentido, a Organização Mundial dos Médicos de Família (WONCA) tem estabelecido estratégias que têm permitido marcar posição dos mesmos na comunidade médica geral.

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