Passado, presente e futuro: a telemedicina nos Cuidados de Saúde Primários

A telemedicina caracteriza-se pela comunicação e troca de informação clínica por canais digitais no sentido de favorecer a saúde do utente, podendo envolver uma interação médico-médico, médico-utente ou utente-tecnologia móvel em saúde.

Um olhar sobre a sua definição poderá traduzir-se num sentimento de distância e de contacto ténue com a realidade. No entanto, é um facto que a telemedicina nunca esteve tão presente e que a conquista pelo seu lugar nos cuidados de saúde já começou há largos anos, sendo expectável a sua expansão no futuro.

Os primeiros sinais da sua implementação e potencial datam de 1998 no âmbito da teleconsulta no Hospital Pediátrico de Coimbra, no sentido de colmatar os constrangimentos ligados ao acesso. A este projeto seguiram-se outros que acabaram por se traduzir na atualmente reconhecida Linha Saúde 24. Um breve esforço de memória e reflexão revela-nos a presença da telemedicina no nosso quotidiano: os softwares de registo clínico e a partilha de dados entre profissionais que estes proporcionam, o Registo de Saúde Eletrónico, a Prescrição eletrónica Médica, a Área do Cidadão e todas as interfaces disponíveis (como são exemplo a app MySNS e appMySNS carteira), entre outras. Protocolos como a Tele-dermatologia e a Tele-monitorização de utentes crónicos no domicílio são projetos já no terreno e com provas dadas do seu impacto na saúde dos utentes.

A vivência do contexto de pandemia foi um motor visível para o seu crescimento. A teleconsulta ganhou lugar e protagonismo (seja ela realizada via telefone, videochamada ou por outros canais). As vantagens associadas são inegáveis, entre as quais podemos identificar a sua flexibilidade, conveniência, simplicidade e capacidade de transpor barreiras nomeadamente no âmbito do acesso. Além disso, esta ferramenta apresenta um potencial significativo de promoção da eficiência dos cuidados de saúde, com recursos limitados e com previsível aumento da procura no futuro dadas as características demográficas da população. No entanto, apesar das evidentes vantagens, são múltiplos os entraves que se lhe colocam. Desde logo, a telemedicina requer, por parte do sistema de saúde e seus profissionais, empenho, motivação e investimento em formação e infraestruturas. A relação médico-utente poderá parecer naturalmente comprometida pelo carácter mais impessoal da teleconsulta. Contudo, pelas suas características, pode ser vista como uma oportunidade de alcançar populações com necessidades mais específicas, como os mais jovens, utentes com uma vida profissional complexa ou mesmo em determinadas patologias e situações nas quais o utente se poderá sentir mais confortável em verbalizar os seus sentimentos, crenças e expectativas não estando no mesmo espaço físico que o profissional.

Mas é importante atender que a teleconsulta não se destina a todas as situações e utentes. É necessário atender à sua adequação clínica, não se destinando a utentes com doença grave ou a situações nas quais não é possível excluir uma situação de alto risco para o utente. Além disso, é fundamental ter em conta as características do próprio o utente e a sua capacidade de aceder e usar os meios necessários á teleconsulta. Também os aspetos legais devem ser salvaguardados, sendo imprescindível o assegurar a autenticação do utente, o seu consentimento e a confidencialidade de todo o processo.

É inegável que a teleconsulta tem um papel fundamental no contexto atual e que o seu crescimento e implementação farão parte do futuro próximo. A teleconsulta será uma realidade integrante do “novo normal” pós-pandémico em todos os níveis dos cuidados de saúde e os Cuidados de Saúde Primários (CSP) não serão exceção. Importa, assim, enfatizar o necessário envolvimento de profissionais e utentes. Para tal, a formação de todos os profissionais é fundamental, no sentido de os dotar das competências necessárias para a realização de uma teleconsulta produtiva e satisfatória para todos os intervenientes, sendo fulcral o envolvimento de todas as classes profissionais, nomeadamente médico, enfermeiros e secretariado clínico. Uma teleconsulta pressupõe um canal seguro e que responda ao objetivo da consulta. Uma teleconsulta não se resume, a título de exemplo, a contacto telefónico para comunicação de resultados de exames complementares ou para avaliação de necessidade de avaliação presencial. O seu potencial vai muito além destas circunstâncias. O enfoque dos CSP no acompanhamento longitudinal do utente, nomeadamente no âmbito da doença crónica, torna este contexto frutífero no que toca ao aproveitamento do potencial da teleconsulta.

Assim, e de forma a maximizar todas as suas potencialidades, são necessárias esforços de liderança estruturada e uma cooperação estreita entre os serviços de saúde, seus profissionais e as estruturas da comunidade. Esta articulação permitirá capacitar as populações e favorecer o ultrapassar de barreiras ligadas á literacia e ao acesso a equipamentos necessários à teleconsulta. Assim, a telemedicina não é, nem será de todo, uma nova medicina. É o espelho da evolução da medicina, pois traduz a sua capacidade de usufruir da evolução tecnológica em favor da melhoria dos cuidados prestados à pessoa, família e comunidade.

Bibliografia:

Reed V. et al. 2017. Telehealth. Publicado em The New England Journal of Medicine, 377;16

Serviços Partilhados do Ministério da Saúde, E.P.E., Plano Estratégico Nacional para a Telesaúde 2019-2022

Crónicas de uma pandemia anunciada
Editorial | Jornal Médico
Crónicas de uma pandemia anunciada

Era 11 de março de 2020, quando a Organização Mundial de Saúde declarou o estado de Pandemia por COVID-19 e a organização dos serviços saúde, como conhecíamos até então, mudou. Reorganizaram-se serviços, redefiniram-se prioridades, com um fim comum: combater o SARS-CoV-2 e evitar o colapso do Serviço Nacional de Saúde, que, sem pandemia, já vivia em constante sobrecarga.

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