Apneia obstrutiva do sono: fator de risco na estrada e em caso de infeção por Covid-19
DATA
23/03/2021 09:07:23
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Jornal Médico
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Apneia obstrutiva do sono: fator de risco na estrada e em caso de infeção por Covid-19

No contexto do Dia Mundial do Sono, que se assinalou a 19 de março, é importante deixar o alerta de que os doentes com apneia obstrutiva do sono (AOS) estão expostos a um risco mais elevado de morte ou de internamento hospitalar após contraírem o novo coronavírus SARS-CoV-2, segundo os dados publicados no Journal Sleep Medicine Reviews1. O risco é também elevado porque quem sofre de AOS, na sua maioria, sofre também de outras condições como diabetes, obesidade e hipertensão arterial e estas comorbilidades fazem com que estes doentes sejam incluídos nos chamados “grupos de risco” e por isso tenham uma maior probabilidade de morte pela COVID-19, como é conhecido.

A AOS é um distúrbio respiratório crónico em que os colapsos intermitentes e repetidos das vias aéreas superiores, durante o sono, levam a uma respiração irregular e a uma fragmentação do sono que condicionam microdespertares e despertares durante o sono. É um distúrbio grave porque pode provocar uma sonolência diurna excessiva, bem como prejudicar a capacidade de raciocínio e de avaliação, aumentando o risco de acidentes. Sabemos que a apneia obstrutiva do sono esta associada a um aumento do risco de Hipertensão arterial e a um maior risco de incidência de enfarte agudo do miocárdio ou acidente vascular cerebral2.

Segundo dados da Direção-Geral da Saúde, de um estudo realizado em 2014, a prevalência de apneia obstrutiva do sono diagnosticada em portugueses com 25 ou mais anos foi de 0,89%. A prevalência é maior nos homens (1,47%) e na população entre os 65 e os 74 anos (2,35%)3.

No contexto da pandemia, de acordo com um estudo4 recente sobre os distúrbios de sono em tempos de pandemia, foi descrita uma alta prevalência de problemas de sono tanto na população em geral (32,3%) como nos profissionais de saúde (36%), sendo os doentes com COVID-19 o grupo com maior incidência de perturbações de sono (74,8%). Embora seja necessário clarificar estes resultados, a estreita relação entre o sono e imunidade é já bem conhecida na comunidade científica, sendo indiscutível a importância de dormir bem para reforçar as defesas do sistema imunitário. É neste contexto que a Sociedade Mundial do Sono escolheu para o Dia Mundial do Sono 2021 o tema “Sono normal, futuro saudável”, porque o sono tem um papel fundamental na saúde e qualidade de vida.

Apesar de a AOS ter um enorme impacto na qualidade de vida dos doentes, existe tratamento que depende de vários fatores como a gravidade da doença, o número e duração das paragens respiratórias, a existência de outras patologias e as características morfológicas do doente.

Atualmente, na maioria dos casos de apneia obstrutiva do sono, a ventilação por pressão positiva contínua, comumente denominada de CPAP, é o tratamento mais indicado e carece de avaliação clínica, diagnóstico e prescrição médica. Consiste na aplicação de pressão positiva de ar através de um equipamento (gerador de pressão) e de uma máscara colocada no nariz, que previne o encerramento da via aérea superior durante o sono, corrigindo assim as paragens respiratórias. Além de ser um equipamento fácil de usar e transportar, é bastante silencioso, apresenta uma grande variedade de máscaras nasais, bem como a possibilidade de humedecer ou aquecer o ar, permitindo encontrar uma solução ajustada à necessidade e preferência de cada doente.  O tratamento não só reduz a sonolência e o cansaço diurno, como reduz o risco de doenças cardiovasculares, bem como o de acidentes de viação associados a hipersonolência diurna.

Adicionalmente, a teleconsulta e a telemonitorização destes doentes revelou ser uma ferramenta essencial nesta fase pandémica, em que é necessário manter os doentes controlados e vigiados em termos de adesão e eficácia terapêutica, mas à distância, reduzindo o risco da deslocação do doente ao hospital.

Trata-se de uma doença muito subdiagnosticada e subtratada, com necessidade urgente de medidas para incrementar a acessibilidade ao seu diagnostico e tratamento, uma vez que apresenta um aumento significativo de mortalidade para os doentes, com importantes consequências a nível dos gastos de saúde e saúde publica.

A sonolência diurna excessiva associada a AOS pode levar os doentes a adormecer com muita facilidade a meio de uma conversa, no local de trabalho ou a mesmo a conduzir. O risco de ter acidentes de viação é 2 a 12 vezes superior nos doentes com AOS, o que torna esta doença um importante problema de saúde pública.

 Referências:

1 University of Warwick. "COVID-19 patients with sleep apnoea could be at additional risk." ScienceDaily. ScienceDaily, 14 September 2020.www.sciencedaily.com/releases/2020/09/200914112218.html

2 Cuspidi C, Tadic M, Sala C, Gherbesi E, Grassi G, Mancia G. Blood Pressure Non-Dipping and Obstructive Sleep Apnea Syndrome: A Meta-Analysis. Journal of Clinical Medicine. 2019; 8(9):1367. https://doi.org/10.3390/jcm8091367

Rodrigues, A. P., Pinto, P., B. Nunes; Bárbara, C. (2014). Síndrome de Apneia Obstrutiva do Sono: Epidemiologia, diagnóstico e tratamento. Um estudo da Rede Médicos-Sentinela (pp. I/26-20/26, Publication). Lisboa: Direção-Geral da Saúde.

Jahrami H, BaHammam AS, Bragazzi NL, Saif Z, Faris M, Vitiello MV. Sleep problems during the COVID-19 pandemic by population: a systematic review and meta-analysis. J Clin Sleep Med. 2021;17(2):299-313. doi:10.5664/jcsm.8930

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Editorial | Jornal Médico
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Era 11 de março de 2020, quando a Organização Mundial de Saúde declarou o estado de Pandemia por COVID-19 e a organização dos serviços saúde, como conhecíamos até então, mudou. Reorganizaram-se serviços, redefiniram-se prioridades, com um fim comum: combater o SARS-CoV-2 e evitar o colapso do Serviço Nacional de Saúde, que, sem pandemia, já vivia em constante sobrecarga.

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