Comunicação médico-doente: a linguagem e a dor

A linguagem é a moeda de troca com a qual compramos o entendimento do outro. Cresce de uma matriz linguística básica, da qual nos educam, universal nos seus alicerces, mas florida de distintos ruralismos e estrangeirismos, mais ou menos coloquiais. Pauta-se pela flexibilidade do seu cariz, ora grave e austera, ora leve, ora sucinta, ora fluída de poética. É neste caudal imenso que nos tentamos rever uns nos outros, descodificar necessidades, pedidos, auxílios.

O inerente espaço sociocultural de cada um (emissor e receptor) é, obviamente, fulcral na construção dialética das ideias que se formam, abstractas, na rede neurobiológica e das transmissões sinápticas, em mensagem final. A compreensão do outro é, nesta medida, um acto de imperiosa audácia, sempre na vertigem do provável falhanço. À descodificação da dor, acresce, ainda, a dificuldade da sua auto-percepção. O que é a dor? Como se caracteriza a dor? A minha dor? Enquanto clínicos, usamos descritivos quantitativos (escalas de dor) e qualitativos ("ardor", "moedeira", "facada" etc.), procurando formalizar esta concepção de sofrimento numa medida objectivável, e delimitando-a no mais concreto dicionário possível.

Mas aquilo que é dor num determinado organismo vivo pode não o ser para outro, e, até para um mesmo indivíduo, pode o limiar da dor ser distinto em ocasiões diversas, moldado por uma variável expressão na dependência, por exemplo, de ímpares experiências emotivas e interpessoais.

Criar quadros clínicos pela percepção do outro, da sua dor, ultrapassa a visão e audição, perfura no íntimo da observação e compreensão, ganhando contornos hercúleos, quando interpretada e reinterpretada.

Em soma, o estoicismo ou, ao invés, o perfil apelativo são particularidades do carácter que criam uma aditiva tonalidade na ambiguidade da materialização da dor. Em certos casos, o exame meticuloso das estruturas corporais reforça a suspeita de uma causalidade plausível e palpável – seja uma solução de continuidade, uma articulação tumefacta ou uma lesão traumática. Noutros, conquanto, não há uma representação externa daquele particular sintoma, e partimos à descoberta de uma incógnita, por meio de exames, por vezes, provavelmente inúteis.

Mais ainda, a cronicidade cria mecanismos, em si, autossustentáveis de perpetuação de aferências álgicas, dismórficas e de desajuste cerebral, e a dor, primeiramente aguda e bem delineada, ganha uma nova identidade em si mesma, por vias de ampliação que ultrapassam, em larga escala, o estímulo nociceptivo local. A esfera psíquica que envolve este emaranhado fisiopatológico é, pois, indivisível do seu congénere mais imediato e físico.

Assim, captar o sofrimento alheio não é um exercício meramente diagnóstico, mas, sim, um acto de profunda humanidade e cultura. O conhecimento científico que nos mune de uma cura ou tratamento atenuador é simplesmente consequente à arte cimeira de saber ler o outro e empatizar com o seu estado de dolência.

Um ano depois…
Editorial | Susete Simões
Um ano depois…

Corria o ano de 2020. A Primavera estava a desabrochar e os dias mais quentes e longos convidavam a passeios nos jardins e nos parques, a convívios e desportos ao ar livre. Mas quando ela, de facto, chegou, a vida estava em suspenso e tudo o que era básico e que tínhamos como garantido, tinha fugido. Vimos a Primavera através de vidros, os amigos e familiares pelos ecrãs. As ruas desertas, as mensagens nas varandas, as escolas e parques infantis silenciosos. Faz agora um ano.

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