POR FAVOR, BASTA!
DATA
26/04/2021 09:37:35
AUTOR
Rui Cernadas
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POR FAVOR, BASTA!

Ouvi, ouvimos muitos alertas e alarmes a disparar contra os populismos, as demagogias, as inverdades ou os extremismos. A respeito das eleições presidenciais que confirmaram, numa única volta, que o bom senso prefere a segurança ao oportunismo, uma explicação piedosa a uma afirmação inconsistente, mesmo que repetida.

Portugal vive momentos trágicos. Mas previsiveis.

O crescendo de mortos a atingir todo o país e escalões etários antes poupados merece o nosso respeito e luto.

O papel de Portugal dos coitadinhos da Europa envergonha-nos, entristece-nos e ridiculariza-nos.

É este o SNS que há quase legislatura e meia se ouve apregoar como essencial e necessário defender, sob a repetida e falsa mensagem de investimento, orçamentos e contratações de recursos humanos como nunca?

Se não são os incêndios de grande dimensão e a mortandade pelos fogos dos últimos anos, são as inundações e os vendavais ou enxurradas.

Se não é o espectáculo montado para trazer para Lisboa a fase final da Liga dos Campeões de futebol 2019/20, é o pedido de ajuda internacional para fazer face aos impactos da COVID-19.

Pedimos aviões e ventiladores, pedimos médicos e enfermeiros, pedimos camas e empréstimos, pedimos subsídios e bazucas…

Mas assistimos por outro lado a uma sucessão de momentos ridículos. E injustificados.

São os ventiladores que vêm, mas com falta de peças ou sem instruções. São as vacinas da Pfizer que se estragam em redes de frio de hospitais. São as outras que se perdem em estradas alentejanas.

No dia 18 de Setembro de 2020, numa daquelas miseráveis conferências de imprensa sobre os dados da COVID, lado a lado, a nossa Colega Dr.ª Graça Freitas e a Senhora Ministra da Saúde anunciavam com pompa que, “este ano, a campanha de vacinação para a gripe vai ser antecipada, começando no dia 28 de setembro, pelas faixas da população prioritárias, que incluem idosos e grávidas.”

Afirmaram ainda que “a campanha de vacinação do Serviço Nacional de Saúde, que começa habitualmente em 15 de outubro, começará mais cedo, havendo 350 mil vacinas para esta primeira fase.”

Porém, os atrasos foram grandes e a campanha não começou mais cedo, nem chegou para todos.

Ao contrário do que aos microfones da Rádio Renascença o Secretário de Estado da Saúde, António Lacerda Sales, em 22 de Maio de 2020, assegurava: “O Ministério da Saúde vai reforçar o stock de vacinas contra a gripe para o próximo inverno”, explicando que, “Portugal pretende adquirir dois milhões de vacinas para a gripe, ou seja, mais 500 mil doses do que as que foram compradas para o inverno que passou, o que representa um aumento de 34%”…

A 26 de Novembro de 2020, a Ministra da Saúde, Marta Temido, sublinhava que “devem ser vacinadas contra a gripe as pessoas elegíveis e que Portugal conseguiu comprar mais vacinas do que países como a República Checa e a Suécia, que têm a mesma população”. A entrevista aos jornalistas Rui Gaudêncio, Rita Ferreira e Anabela Góis passou e ressoou a partir da Rádio Renascença.

Antes, li no Jornal Médico de 6 de Novembro de 2020:

“À data de 3 de novembro foram entregues ao SNS 1,8 milhões de vacinas. Estão em entrega 270 mil vacinas na semana de 30 de novembro a 6 de dezembro, uma data que poderá ser antecipada. Até à data, foram vacinados um milhão de portugueses, havendo 800 mil vacinas em stock”, dizia Marta Temido, durante uma audição conjunta nas comissões parlamentares de Saúde e de Orçamento e Finanças, para apreciação na especialidade do Orçamento de Estado 2021.

Por fim, em 25 de Janeiro de 2021 na TVI24, a ministra assegurou que existiam ainda 800 mil vacinas para a gripe em stock, apesar das notícias de rutura nas farmácias. Marta Temido acrescenta ainda que “já um milhão de portugueses tiveram acesso à vacina.”

No Inverno anterior, a época da vacinação contra a gripe arrancou mesmo no dia 15 de Outubro de 2019 em Portugal, com dois milhões de vacinas disponíveis, 1,4 milhões para serem dadas gratuitamente a grupos de risco no Serviço Nacional de Saúde (SNS) e cerca de 600 mil para venda em farmácias.

Ou seja, resumindo em 2020 foram vacinados menos Portugueses do que em 2019 e pela voz da ministra ficamos a saber que, entre 3 de Novembro de 2020 e 25 de Janeiro de 2021, ninguém se vacinou contra a gripe no SNS!

Enfim, pela boca morre o peixe, diz um velho ditado luso.

Num texto judaico muito apropriado pode ler-se: “Quando falares, fala pouco, pois quanto menor for o número de palavras tanto menos errarás”.

Por favor, basta!

Crónicas de uma pandemia anunciada
Editorial | Jornal Médico
Crónicas de uma pandemia anunciada

Era 11 de março de 2020, quando a Organização Mundial de Saúde declarou o estado de Pandemia por COVID-19 e a organização dos serviços saúde, como conhecíamos até então, mudou. Reorganizaram-se serviços, redefiniram-se prioridades, com um fim comum: combater o SARS-CoV-2 e evitar o colapso do Serviço Nacional de Saúde, que, sem pandemia, já vivia em constante sobrecarga.

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