“A asma não pode ser curada, mas pode ser tratada”
DATA
08/06/2021 10:28:31
AUTOR
Ana Mendes
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“A asma não pode ser curada, mas pode ser tratada”

A asma é uma doença heterogénea habitualmente caracterizada por inflamação crónica das vias aéreas e definida por uma história de sintomas respiratórios, tais como pieira, dispneia, aperto torácico ou tosse que variam em intensidade e duração, juntamente com obstrução variável do fluxo expiratório.

É uma das doenças crónicas mais frequentes no mundo. Estima-se que cerca de 300 milhões de pessoas sofram de asma, número com tendência para aumentar e que pode atingir os 400 milhões, em 2025. O número de dias perdidos, em que a doença interfere com atividade laboral, lúdica ou escolar, é calculado em 15 milhões/ano, equivalente ao atribuído à diabetes, com custos diretos e indiretos elevados.

Em Portugal, a prevalência da asma é de cerca de 4,8% (10% nas idades <14 anos), o que se traduz por >700000 mil portugueses com asma, ou seja 1/15 pessoas, a maior parte em idade escolar/laboral. Destes, cerca de 5% têm asma grave e são responsáveis por mais de 50% dos recursos.

O diagnóstico é essencialmente clínico, mas pode ser complementado pela realização de uma espirometria com broncodilatação que mostre uma variação >12% ou 200 mL, entre o FEV1 basal e pós broncodilatação.  

O mecanismo subjacente à asma é a inflamação. Esta inflamação é bastante variável e resulta da interação de vários fatores como a predisposição genética e fatores ambientais (ex: alérgenos) desencadeando uma cascata inflamatória que pode ser essencialmente TH2 ou não TH2. Na maioria das crianças e na metade dos pacientes adultos com asma, a inflamação é do tipo 2, e embora, grande percentagem esteja relacionada com mecanismos alérgicos, a alergia não é condição obrigatória para a existência de asma.

A asma não pode ser curada, mas pode ser tratada de modo a que o doente tenha uma qualidade de vida idêntica à de uma pessoa saudável.

O tratamento faz-se de acordo com a gravidade clínica, tendo por objetivos o controlo dos sintomas, de forma a manter as atividades do dia-a-dia, e a diminuição do risco futuro (prevenção de exacerbações, manutenção da função pulmonar, diminuição de efeitos secundários da terapêutica) e segue a abordagem por degraus de acordo com as guidelines do GINA (Global Iniciative Network for Asthma). É um tratamento de caráter dinâmico e o doente deve ser reavaliado periodicamente. Os degraus podem ser subidos ou descidos, de acordo com nível de controlo conseguido. 

A falta de controlo da asma não está diretamente relacionada com a gravidade da mesma: o nível de medicação necessária para adquirirmos esse controlo é que vai permitir classificar a asma de ligeira a grave.  

O grau de controlo da asma pode ser definido pela forma como os sintomas se manifestam com ou sem tratamento. Para calcular grau de controlo existem inquéritos como o ACT (Asthma Control Test) ou o CARAT (Control of Allergic Rhinitis and Asthma Test) em que perguntas referentes a sintomas, interferência na atividade diária e necessidade de medicação nas últimas 4 semanas ajudam a ter uma melhor perceção do mesmo. 

Asma grave deve ser distinguida de asma não controlada por outros motivos, tais como a falta de terapêutica. Por essa razão, para que seja feito o diagnóstico de asma grave, a ERS (European Respiratory Society) e a ATS (American Thoracic Society) propõem uma avaliação de pelo menos 3 meses efetuada por um especialista. Em Portugal, as NOC (Normas de Orientação Clínica) determinam as situações em que o doente com asma deve ser encaminhado para um especialista.

Sendo a asma uma doença heterogénea, a terapêutica convencional e generalizada, em que doentes com características idênticas são agrupados e tratados de modo similar, não é, por vezes, suficiente. Cada vez mais é necessário perceber o doente individualmente de modo a realizar uma terapêutica personalizada. Os anticorpos monoclonais são, neste momento, o instrumento mais eficaz dessa abordagem. Atualmente, há 5 anticorpos monoclonais para o tratamento da asma, todos eles dirigidos à asma com perfil de inflamação TH2 high: o omalizumab (ou anticorpo antiIgE), os anticorpos anti IL5 mepolizumab, reslizumab e benralizumab e o anticorpo antiIL4/13 o dupilumab. Não há ainda terapêutica monoclonal dirigida aos doentes com endotipo TH2 low.

A gestão do doente com asma não é fácil e, no último ano, a pandemia COVID-19 veio acentuar problemas já evidenciados antes, tais como a necessidade de diminuir o número de visitas hospitalares destes doentes e a sobrecarga do serviço. Embora os dados disponíveis atualmente não indiquem um risco aumentado de contrair esta infeção pelos doentes com asma, um mau controlo da doença poderá contribuir para uma maior gravidade do quadro respiratório associado à infeção COVID-19. Um passo importante para facilitar o tratamento dos doentes foi a possibilidade de os doentes com asma grave poderem fazer a administração do biológico no domicílio limitando o número de vindas ao hospital às necessárias para observação em consulta.

A importância que a asma pode refletir na sociedade, levou à criação de programas internacionais e nacionais com vista à uniformização de critérios de diagnóstico, prevenção e tratamento que permitam um melhor conhecimento e controlo da doença.  A SPAIC (Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica) tem contribuído num esforço de divulgação e informação, não só para os doentes com campanhas de sensibilização divulgadas nos media e plataformas sociais, como também para médicos através de documentos informativos disponíveis na página de internet e do espaço de E-learning onde se encontram cursos de formação para diversos níveis. As iniciativas da SPAIC têm contribuído para um melhor conhecimento da asma e para um diálogo mais eficaz entre população, cuidados de saúde primários e cuidados diferenciados de modo a que os desafios nesta área possam ser ultrapassados.

MGF 2020-30: Desafios e oportunidades
Editorial | Gil Correia
MGF 2020-30: Desafios e oportunidades

Em março de 2020 vivemos a ilusão de que algumas semanas de confinamento nos libertariam para um futuro sem Covid-19. No resto do ano acreditámos que em 2021 a realidade voltaria. Mas, por definição, a crise é uma mudança de paradigma. O normal mudou. Importa que a Medicina Geral e Familiar se adapte e aproveite as oportunidades criadas. A Telemedicina, a desburocratização e um ambiente de informação, amigável flexível e unificado são áreas que me parecem fulcrais na projeção da MGF no futuro.

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