Diarreias de verão
DATA
15/07/2021 15:05:16
AUTOR
Tiago Maricoto
ETIQUETAS


Diarreias de verão

Com a chegada do verão, o médico especialista em Medicina Geral e Familiar, Tiago Maricoto, alerta para a necessidade de prevenção de episódios de diarreia, deixando algumas dicas de como prevenir e tratar, quais as causas e quais os sinais de alerta.

O que são e qual as causas?

A diarreia caracteriza-se por um aumento do número de evacuações intestinais e pela perda da consistência das fezes. Entre as diversas causas as mais frequentes são:

  • as gastroenterites infeciosas – podem ser causadas por bactérias (como a escherichia coli ou as salmonelas), parasitas (como a giardia lamblia) ou vírus (sendo o Rotavírus um dos agentes mais frequentes em crianças).
  • as causadas por toxinas – que podem ser produzidas por bactérias ou dever-se a contaminação alimentar.
  • as derivadas de doenças inflamatórias autoimunes, hormonais/endócrinas ou oncológicas.
  • as causadas por efeitos secundários de medicamentos.
  • entre outras…

No período do verão as diarreias são particularmente frequentes e neste contexto incluem-se a diarreia do viajante (muitas vezes associada a viagens para países de clima tropical e com diferente microbiota ambiental), as toxinas alimentares (que no verão se devem a alimentos mal conservados e contaminados por microrganismos que proliferam devido às condições climatéricas) ou as parasitoses intestinais (que apesar de pouco prevalentes em Portugal, afetam regularmente as crianças que contactam com animais em ambiente selvagem).

Por vezes os quadros de diarreia fazem-se acompanhar de outros sintomas, como náuseas, vómitos, dores abdominais e musculares, febre, ou mesmo sangue e muco nas fezes. A maioria dos episódios são agudos, com duração de 5 a 7 dias e resolvem-se espontaneamente com cuidados gerais de saúde.

Como prevenir e tratar?

A melhor forma de prevenir episódios de diarreia é através de cuidados de higiene e alimentação adequados, evitando o risco de contágio, quer por agentes infeciosos, quer por alimentos contaminados ou mal conservados. Por esse motivo deve haver uma atenção especial para a forma de conservação dos alimentos, privilegiando alimentos frescos, reforçando a hidratação regular, principalmente nas crianças mais ativas e nos idosos frágeis, higienizar regulamente as mãos e evitar ambientes de potencial contágio (como praias de água não controlada) e o contacto com animais selvagens. Em caso de viagem para o estrangeiro, deve-se privilegiar água engarrafada e optar por restaurantes de confeção internacional.

Uma hidratação adequada é de crucial importância durante o período de verão, quer para prevenir eventuais episódios de diarreia, mas também durante o tratamento da mesma. Habitualmente a diarreia de verão não necessita de tratamentos farmacológicos, bastando para tal uma alimentação adequada, com alimentos neutros e de digestão fácil (como maçã, banana, carnes magras e peixe, arroz, batata e sopa) e evitar alimentos de pH ácido, ricos em gorduras ou com especiarias. A toma de medicamentos para “travar” a diarreia não é por norma recomendada.

Frequentemente durante a diarreia há uma desregulação da microbiota intestinal, e por isso os probióticos e prébioticos têm tido um papel cada vez mais importante no seu tratamento. O seu papel passa não só pelo normal equilíbrio da flora bacteriana intestinal, mas também pelo funcionamento adequado do sistema imunitário, estando por isso recomendados pelas sociedades médicas internacionais de gastroenterologia. Entre as opções mais eficazes e recomendadas encontram-se o Saccharomyces boulardii, os Lactobacillus paracasei, reuteri e rhamnosus e cepa de S. cerevisiae, que ajudam a diminuir a duração do episódio de diarreia, bem como a promover uma recuperação mais rápida e natural.

Sinais de alerta?

Alguns quadros de diarreia podem estar associados a condições clínicas mais graves, necessitando de observação e tratamento médico adequado. Assim, a ajuda médica deve ser procurada em situações de diarreia prolongada e persistente, ou associada a vómitos repetitivos que impeçam a adequada hidratação e nutrição, na presença de febre elevada e persistente, confusão e desorientação, ou se também houver perdas de sangue nas fezes.

Os idosos, as crianças com menos de 2 anos e as pessoas com doenças crónicas graves são mais vulneráveis e como tal deverão ser alvo de atenção especial em caso de diarreia persistente.

Referências

  • McFarland LV. Systematic review and meta-analysis of Saccharomyces boulardii in adult patients. World J Gastroenterol. 2010 May 14;16(18):2202-22. doi: 10.3748/wjg.v16.i18.2202.
  • Rauch M, Lynch SV. The potential for probiotic manipulation of the gastrointestinal microbiome. Curr Opin Biotechnol. 2012 Apr;23(2):192-201. doi: 10.1016/j.copbio.2011.11.004.
  • Gill HS, Rutherfurd KJ, Prasad J, Gopal PK. Enhancement of natural and acquired immunity by Lactobacillus rhamnosus (HN001), Lactobacillus acidophilus (HN017) and Bifidobacterium lactis (HN019). Br J Nutr. 2000 Feb;83(2):167-76. doi: 10.1017/s0007114500000210.
  • Shida K, Kiyoshima-Shibata J, Nagaoka M, Watanabe K, Nanno M. Induction of interleukin-12 by Lactobacillus strains having a rigid cell wall resistant to intracellular digestion. J Dairy Sci. 2006 Sep;89(9):3306-17. doi: 10.3168/jds.S0022-0302(06)72367-0.
  • Guarner F. et al. Diretrizes Mundiais da Organização Mundial de Gastroenterologia. Probióticos e prebióticos. Fevereiro de 2017. World Gastroenterology Organisation.
MGF 2020-30: Desafios e oportunidades
Editorial | Gil Correia
MGF 2020-30: Desafios e oportunidades

Em março de 2020 vivemos a ilusão de que algumas semanas de confinamento nos libertariam para um futuro sem Covid-19. No resto do ano acreditámos que em 2021 a realidade voltaria. Mas, por definição, a crise é uma mudança de paradigma. O normal mudou. Importa que a Medicina Geral e Familiar se adapte e aproveite as oportunidades criadas. A Telemedicina, a desburocratização e um ambiente de informação, amigável flexível e unificado são áreas que me parecem fulcrais na projeção da MGF no futuro.

Mais lidas