Tabaco e seus sucedâneos ...

A Saúde do meu Doente será a minha primeira preocupação - jurou cada médico na hora de se integrar na sua prática e na sua Ordem. Ajudar um ser humano doente é dever de cada médico em quaisquer circunstâncias e o fumador é um Doente. Uma abordagem do fumador, que continua a colocar a sua saúde em risco cada dia, é dever de cada médico, diria mesmo de cada profissional de saúde. Mais breve ou mais detalhada, sendo possível e adequado, deve fazer parte integrante de cada ato médico.

A cessação tabágica é uma decisão terapêutica que, embora difícil e complexa, é imprescindível para deter uma ampla gama de consequências nefastas no organismo. Vale sempre a pena recomendá-la mesmo em fases avançadas de patologias graves, pois está provado que tem impacto na melhoria da qualidade de vida.

No entanto, a intervenção médica para a cessação é muitas vezes esquecida e, frequentemente, nem a anamnese sobre os hábitos tabágicos é considerada. Trata-se de uma grave omissão, pois são um importante componente dos sinais vitais de cada indivíduo.

Há muitas pessoas que gostariam de deixar de fumar e que até já tentaram por várias vezes. Essas tentativas são feitas, em regra, sem apoio de qualquer profissional de saúde e, em muitos dos casos, são condenadas a falhar, porque a dependência da nicotina, o stress, a frágil estabilidade do estado de espírito, conduzem diretamente à recaída do tabagismo.

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É por isso que é tão importante ABORDAR sistematicamente o tabagismo nas pessoas que nos procuram, para saber da sua disponibilidade para cessar, oferecendo naturalmente algum apoio se houver essa predisposição por parte do fumador.

Esse apoio deve contar com a rede de consultas que, no Serviço Nacional de Saúde (SNS) ou fora dele, providenciem meios diferenciados e sustentáveis de avaliação e tratamento do tabagismo, prevenindo a sua recaída, risco sempre presente depois da cessação, ao longo de anos ou mesmo décadas.

Foi divulgado há dias o relatório do Programa Nacional para a Prevenção do Controlo do Tabagismo (PNPCT), que revela uma quebra significativa neste apoio diferenciado. Em 2020, foram atendidos 6.129 utentes em primeiras consultas de cessação tabágica, o que representa um decréscimo relativo de 51,7% comparativamente ao ano anterior. Sabemos que, para o êxito desta atuação diferenciada de apoio ao fumador, muito conta o fator presencial desta consulta, pelo menos na primeira abordagem. Ora, nos 152 locais de consulta de cessação do SNS que se mantiveram a funcionar em 2020, o atendimento foi realizado de modo presencial apenas em 62,8% das consultas realizadas. Este dado faz pensar que o êxito deste apoio será, assim, muito incerto.

No que respeita ao impacto da pandemia sobre os hábitos de consumo tabágico da população portuguesa sabemos, pelos resultados divulgados de inquéritos promovidos pela Sociedade Portuguesa de Pneumologia (SPP), que o consumo diminuiu numa primeira fase, em 2020, mas que em 2021, noutra fase da pandemia, houve significativamente mais fumadores a aumentar e menos a diminuir o consumo de tabaco, refletindo, muito provavelmente, o impacto de um confinamento tão prolongado sobre a saúde mental e a falta de consultas de apoio ao fumador, que se verificaram durante este período.

O presidente da SPP lembra, a propósito da publicitada redução do consumo tabágico em 2019, relativamente a 2014, saudada como o cumprimento das metas do Plano Estratégico do Tabagismo da Direção Geral da Saúde, que a redução no consumo de tabaco tradicional “fica aquém daquilo que seria o desejável”, uma vez que se deve essencialmente à substituição por cigarros eletrónicos em alguns setores da população.

Em 2019, nos jovens com idades compreendidas entre os 13 e os 18 anos, os cigarros foram o tipo de produto mais referido por quem já experimentou fumar – 29,3% – sendo estes seguidos dos cigarros eletrónicos – 22,2% –, do cachimbo de água (shisha) – 15% – e do tabaco aquecido – 4,9%.

Por isso um apelo final a todos os profissionais de saúde responsáveis - perante um(a) fumador(a), perguntem pelos hábitos tabágicos, aconselhem a cessação e orientem e apoiem o esforço respetivo. SEMPRE !

REFERÊNCIAS

https://www.sns.gov.pt/wp-content/uploads/2019/11/RelatorioTabaco2019.pdf

https://www.sppneumologia.pt/noticias

https://www.sppneumologia.pt/noticias/resultados-do-inquerito-da-spp-revelam-que-portugueses-fumaram-mais-durante-o-segundo-confinamento

https://www.sppneumologia.pt/comissoes-de-trabalho-e-grupos/comissoes-de-trabalho/tabagismo

https://www.tsf.pt/portugal/sociedade/tabaco-contribuiu-para-a-morte-de-mais-de-13-mil-pessoas-em-2019-em-portugal-13873320.html, consultado em Lusa, 25-06-2021

Se os jovens Médicos de Família querem permanecer no SNS e se o SNS precisa deles, o que falta?
Editorial | António Luz Pereira
Se os jovens Médicos de Família querem permanecer no SNS e se o SNS precisa deles, o que falta?

Nestes últimos dias tem sido notícia o número de vagas que ficaram por preencher, o número de jovens Médicos de Família que não escolheram vaga e o número de utentes que vão permanecer sem médico de família. Há três grandes razões para isto acontecer e que carecem de correção urgente para conseguir cativar os jovens Médicos de Família.

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