“Mãe, pai, dói-me a cabeça!”

As queixas de cefaleia, isto é, de dor de cabeça, são extremamente frequentes na prática clínica. E se isto é verdade para a população adulta, também o é para a idade pediátrica: a cefaleia é um motivo muito usual de procura de ajuda médica também em crianças e adolescentes. Na generalidade dos casos, os pais tendem a desvalorizar as queixas, considerando muitas vezes que “não existem dores de cabeça nas crianças” e “tudo não passa de mais um motivo para não ir à escola” ou para qualquer absentismo de qualquer atividade que não seja particularmente entusiasmante. Ora, não é, de todo, assim.

Em idade pediátrica existem também cefaleias primárias (isto é, que não são sintoma de qualquer outra doença subjacente – antes são, elas próprias, o problema) e secundárias (em que a cefaleia se inscreve numa constelação de sintomas que gravitam em torno de um outro diagnóstico, como acontece, por exemplo, com uma vulgar síndrome gripal). De todas as cefaleias primárias, a mais conhecida será seguramente a enxaqueca, não por que seja a mais frequente, mas porque é, pelas suas exuberantes manifestações clínicas, muito incapacitante. Os critérios que permitem concretizar o diagnóstico de enxaqueca na criança são genericamente os mesmos que se aplicam para a população adulta, tal como se encontram definidos na Classificação Internacional de Cefaleias, na sua terceira edição. A dor é descrita como pulsátil (as crianças chegam a caracterizá-la como “um tambor a bater dentro da cabeça”), forte, acompanhada de náuseas e/ou vómitos, assim como de outras manifestações de natureza mais subjetiva, como a foto, a fono e a cinesiofobia (aversão à luz, ao som e ao movimento, respetivamente). Nem sempre se observa uma dor tipicamente hemicraniana, mas a manifestação de uma cefaleia holocraniana (que envolve toda a cabeça) não deve desencorajar o clínico de considerar o diagnóstico de enxaqueca.

Para além disso, em idade pediátrica, uma boa história clínica pode permitir a identificação de outras manifestações, habitualmente de expressão mais precoce na vida, que podem considerar-se verdadeiros equivalentes de enxaqueca (e que são descritos como síndromes episódicas associadas à enxaqueca, na Classificação Internacional): o torcicolo paroxístico, a vertigem paroxística benigna e a perturbação gastrointestinal recorrente, onde se incluem a síndrome dos vómitos cíclicos e a clássica enxaqueca abdominal. A somar a estas verdadeiras pistas diagnósticas, existe muitas das vezes uma história familiar significativa para enxaqueca. E não infrequentemente os pais recapitulam nos próprios filhos as queixas que, quando crianças ou adolescentes, eles próprios sentiram, tivessem ou não sido valorizadas, na altura.

Esta questão, a da valorização dos sintomas, é absolutamente crítica para condicionar a precocidade do diagnóstico (ou a falta dela...), assim como toda a estratégia terapêutica que se venha a considerar. À consulta de Neurologia Pediátrica chegam, por vezes, crianças e adolescentes com anos de sintomas muito sugestivos de enxaqueca, mas ainda sem diagnóstico estabelecido. Num estudo que conduzimos há poucos anos atrás, publicado na revista Sinapse (órgão oficial da Sociedade Portuguesa de Neurologia)1, num conjunto de Centros de Saúde da zona centro do país, estimámos, através dos registos clínicos dos Médicos de Família, uma prevalência de enxaqueca na população pediátrica de 0.35%. Este número é extremamente baixo e não corresponde ao que é conhecido da epidemiologia da doença, nesta população, em que sabemos que tal prevalência ronda os 10%. Ainda assim, explica-se facilmente: o diagnóstico de enxaqueca não se encontra estabelecido e registado na lista de problemas das crianças e adolescentes. Existe, portanto, um subdiagnóstico desta condição clínica a nível dos cuidados de saúde primários.

Paradoxalmente, o estudo permitiu também afirmar a existência de um sobrediagnóstico de enxaqueca: nas crianças e adolescentes em que tal se encontrava registado, efetuando posteriormente uma entrevista de aferição diagnóstica (com a criança e com a família), foi possível constatar que, em cerca de 10% dos casos, a cefaleia era de outro tipo e não correspondia, portanto, a uma enxaqueca.

Haverá, assim, espaço para a melhoria de cuidados, particularmente no tocante ao diagnóstico. Mas a ele está também intrinsecamente ligada a definição da estratégia terapêutica mais adequada para a criança ou adolescente. Há, por exemplo, fármacos abortivos de crise com indicação para poderem ser usados no tratamento da enxaqueca em idade pediátrica, particularmente a partir dos 12 anos de idade. Não os considerar é desperdiçar uma opção terapêutica válida e eficaz; utilizá-los fora deste contexto (particularmente se o diagnóstico não estiver correto) pode contribuir para que surjam efeitos adversos, sem benefício clínico. Mais uma vez se reforça a importância do diagnóstico assertivo. E tudo começa habitualmente com a mesma afirmação: “Mãe, pai, dói-me a cabeça...”. No meio de tantas coisas que podem contribuir para queixas de cefaleia em crianças e adolescentes, sejamos sensíveis à possibilidade diagnóstica de uma enxaqueca. Ela existe, de facto.

             

Referências:

  1. Lopes Freitas R, Mina M, Madanelo I, et al. Estudo da Enxaqueca em Idade Pediátrica nos Cuidados de Saúde Primários da Região Centro de Portugal. Sinapse. 2020;20(1):9-16.
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