A dor crónica não é um problema individual – é um problema de saúde pública

A dor crónica tem o potencial de alterar hábitos, comportamentos e vidas. É uma dor persistente ou recorrente que causa sofrimento e apresenta consequências negativas, por vezes devastadoras, na vida pessoal, familiar e laboral, diminuindo drasticamente a qualidade de vida da pessoa que apresenta esta condição.

 

Não é só um problema de cada um, é um problema de saúde pública e, uma das principais causas de procura dos cuidados de saúde em todo o mundo. Em Portugal, os dados mais recentes estimam uma prevalência de 33,6% de pessoas a viver com dor crónica e, apesar de ser uma das doenças mais prevalentes, a dor crónica é ainda uma realidade pouco considerada pelos profissionais de saúde e escondida por quem sofre.

O acesso aos cuidados de saúde especializados em dor crónica continua longe de ser ideal. O tratamento da dor crónica é feito predominantemente ao nível dos cuidados de saúde primários, com um processo que se revela muitas vezes lento e muito condicionado pelas assimetrias regionais e geográficas do nosso país. Para além disso, as terapêuticas farmacológicas continuam a ser favorecidas, apesar dos efeitos secundários, questões associadas à tolerância medicamentosa ou eficácia limitada.

Efetivamente, a dor é uma experiência multidimensional demasiado complexa e dinâmica para se cingir unicamente à componente física e ser gerida apenas farmacologicamente. A dor crónica deve ser encarada como um desafio multidimensional, em que todas as terapêuticas químicas, físicas e psicológicas coexistam, inseridas numa abordagem multiprofissional.

A escassez da formação pré e pós-graduada na área da dor, bem como o número e a alocação limitada dos profissionais de saúde dedicados a esta área de prestação de cuidados de saúde, constitui outro entrave à dinamização e eficácia do tratamento da dor crónica. Também relevante é o défice em termos de educação e capacitação dos pacientes com dor, sendo uma missão importante dessa mesma prestação de cuidados, a contribuição para a literacia dos cidadãos em relação à prevenção e controlo da dor.

Com a pandemia por COVID-19 assistiu-se a um maior distanciamento dos cuidados de saúde relativamente aos cidadãos nesta e noutras áreas de saúde, que não as relacionadas diretamente com a pandemia. O acesso ficou dificultado e o acompanhamento dos cidadãos mais distanciado. Contudo, a pandemia trouxe também a oportunidade de compreendermos e aceitarmos a importância do cuidado à distância; do estar presente e do acompanhar, ainda que nem sempre de forma direta e presencial. O conforto e conveniência de ter a capacidade de avaliar remotamente a intensidade, impacto e experiência de dor, assim como uma equipa multidisciplinar disponível para fornecer estratégias para lidar com a dor crónica, democratiza o acesso da população a cuidados diferenciados.

É neste seguimento que uma equipa com médicos, psicólogos, enfermeiros e investigadores criou um projeto de monitorização da dor e de acompanhamento personalizado na gestão e combate à dor - uma iniciativa desenvolvida em conjunto com o Centro de Medicina Digital P5, da Escola de Medicina da Universidade do Minho. O intuito é simples: a procura e promoção dos melhores cuidados, de cuidados centrados na pessoa com dor, nesta área tão negligenciada, tentando fazer a translação do conhecimento académico, com a prática clínica do dia a dia.

Queremos promover o acesso da pessoa com dor crónica a cuidados multidisciplinares, com a proximidade e conveniência da medicina digital, mas sempre com toda a nossa presença humana, olhos nos olhos, e com total atenção, disponibilidade e empatia. Queremos dar mais qualidade de vida a todas as pessoas com dor crónica, minimizando o seu sofrimento e melhorando o seu bem-estar, e ajudar no primeiro passo para um país mais consciente e comprometido com a resolução das dificuldades da nossa população.

Governação Clínica
Editorial | Joana Romeira Torres
Governação Clínica

O Serviço Nacional de Saúde em Portugal foi criado e cresceu numa matriz de gestão napoleónica, baseada numa forte regulamentação, hierarquização e subordinação ao poder executivo, tendo como objeto leis e regulamentos para reger a atividade de serviços públicos no geral, existindo ausência de regulamentação relativa à sua articulação com os serviços sociais e económicos.

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