Medicina em São Tomé: ao ritmo do leve-leve
DATA
18/10/2021 09:41:56
AUTOR
Mara da Silva
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Medicina em São Tomé: ao ritmo do leve-leve

A Medicina exercida no contexto de um país desenvolvido lança desafios para os quais nos vamos preparando ao longo de toda a formação académica, sempre focados no tipo de Medicina que haveremos de exercer onde os recursos disponíveis estão acessíveis. Contudo, noutras realidades, onde o acesso aos cuidados não é global nem universal, os desafios enfrentados são certamente maiores e mais difíceis de gerir.

Somos formatados durante o curso para ter à nossa disposição variados meios de diagnóstico, várias possibilidades de tratamento, sistemas informáticos para todos os propósitos. Aqui a realidade é outra. A escassez de recursos humanos é notória, e mais que isso, faltam profissionais especialistas nas diversas áreas, uma vez que cada vez mais se torna impossível um só médico saber com distinção resolver todos os problemas, de todos os sistemas. E faltam, por outro lado, médicos de família que façam o acompanhamento holístico das pessoas, a prevenção de doença e promoção de saúde. O sistema está incompleto.

Nos postos de saúde falta medicação, aparelhos de laboratório que não avariem dia-sim dia-não, infraestruturas cuidadas que proporcionem boas condições de trabalho. Lembro-me, por exemplo, de vários dias não existir ibuprofeno no serviço de urgência, ou mesmo insulina rápida para tratar hiperglicémias graves. Metoclopramida, na maioria das vezes, apenas oral. Numa era de novidade no tratamento da diabetes, com o aparecimento dos iSGLT2 e dos análogos de GLP1, no país só existem dois anti-diabéticos orais na farmácia pública: metformina e glibenclamida. Não existem associações de fármacos com nomes pomposos para simplificar o esquema terapêutico, e as crianças não têm câmaras expansoras, formulações em xarope ou ibuprofeno em goma. Para ter acesso a mais que isto, as pessoas teriam que recorrer à chamada “farmácia privada”, onde uma caixa de um medicamento banal, como uma associação antihipertensora, pode chegar às 3000 dobras (120€). Na maioria dos dias, o laboratório não funciona, as análises são adiadas ou arriscamo-nos a receber como resultado “falta reagente”. Grande parte dos gabinetes não possui sistema de arrefecimento (note-se que é um país que mantém altas temperaturas todo o ano) e não há um sistema informático eficaz, onde seja feito o registo de consulta, se consultem os dados do utente e o seu histórico clínico. Tudo continua a funcionar através de registo em papel.

O conceito de consulta de seguimento começa apenas agora a ser implementado, e percebi que a maioria das pessoas que vem a consulta traz um problema agudo que é o seu verdadeiro motivo de consulta e não vem apenas para seguimento de patologias como a hipertensão arterial ou a diabetes mellitus. O mesmo acontece com a saúde infantil e com a saúde materna, onde não há observação médica em consulta, a menos que haja uma queixa. O uso de chás medicinais e ervas para o tratamento de problemas como contusões, hipertensão, insónia, lesões de pele, é frequente, e a prescrição é muitas vezes feita por parte dos enfermeiros e médicos, além do uso pelo senso comum.

Apesar de tudo isto, o lema “S.T.P.: somos todos primos” reina. As pessoas aguardam pacatamente a sua vez de consulta, na azáfama de uma sala de espera cheia, e confiam aos profissionais de saúde o seu bem-estar. A magia acontece, do pouco se faz muito.

Governação Clínica
Editorial | Joana Romeira Torres
Governação Clínica

O Serviço Nacional de Saúde em Portugal foi criado e cresceu numa matriz de gestão napoleónica, baseada numa forte regulamentação, hierarquização e subordinação ao poder executivo, tendo como objeto leis e regulamentos para reger a atividade de serviços públicos no geral, existindo ausência de regulamentação relativa à sua articulação com os serviços sociais e económicos.

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