Saúde reprodutiva e planeamento familiar... no masculino!

As relações sexuais estão relacionadas com emoções positivas tais como o prazer, a atração e o amor. Contudo, podem também associar-se a receios como a possibilidade duma gravidez não planeada e do contágio de infeções sexualmente transmissíveis (ISTs).1 No relacionamento heterossexual, o uso da contraceção tem sido uma responsabilidade tradicionalmente atribuída à mulher. No entanto, uma gravidez não planeada e o contágio de ISTs podem afetar negativamente a saúde e a vida do homem, pelo que é fundamental que este também se preocupe com o controlo da sua fecundidade e proteção da sua saúde.2

Segundo o Programa de Saúde Reprodutiva/Planeamento Familiar, a saúde reprodutiva é “um estado de bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doença ou enfermidade, em todos os aspetos relacionados com o sistema reprodutivo, suas funções e processos”. Este programa advoga que devem ser criadas condições que facilitem o acesso dos homens, em particular dos mais jovens, a estas consultas.3 Todavia, as normas de género, a escassez de métodos contracetivos masculinos e a forma como estão estruturados os cuidados de saúde prestados no âmbito do planeamento familiar fazem com que o sexo masculino seja frequentemente esquecido e assuma um papel passivo ou mesmo nulo no que diz respeito à sua própria fecundidade. 2

Perante um relacionamento heterossexual, o planeamento familiar deve ser uma preocupação e decisão de ambos os membros do casal, podendo também o homem ser o ator principal deste planeamento.1-2 Com efeito, encontram-se disponíveis os seguintes métodos contracetivos masculinos: o preservativo masculino, o único método que protege contra as ISTs, apresentando uma falência de 2-18% durante o primeiro ano de utilização, que depende do seu correto uso, devendo ser idealmente associado a outro método contracetivo mais eficaz; a vasectomia, método irreversível, que consiste numa cirurgia minimamente invasiva, com elevada eficácia, apresentando uma falência de 0,15% por ano; e o coito interrompido, com uma falência de 4-22% no primeiro ano de utilização, podendo ser associado a um método complementar de maior eficácia.3,4

Apesar do pequeno leque de métodos contracetivos masculinos atualmente existentes, existem situações em que o uso de contraceção é difícil ou impossível para a mulher e nas quais a contraceção masculina apresenta maior relevância. Além disso, o envolvimento e a participação ativa do homem no planeamento familiar permitem que este tenha o controlo da sua própria fecundidade em detrimento de delegar essa responsabilidade no elemento feminino.1-2

Por estes motivos, é importante que sejam criadas políticas de maior inclusão masculina no planeamento familiar e saúde reprodutiva, promovendo a responsabilidade e o controlo do homem na sua vida sexual e no seu futuro. Estas ações poderão começar na consulta com o Médico de Família, através da abordagem do tema e da distribuição do Guia Masculino da Contraceção, aprovado pela Sociedade Portuguesa da Contraceção (SPDC).

 

Referências bibliográficas:

1. Guia Masculino da Contraceção. Grupo Ibérico de Estudos da Contraceção de Emergência. 2017.

2. Os homens e a contraceção. Associação Portuguesa de Planeamento Familiar e Sociedade Portuguesa da Contraceção. Consultado em https://contracecao.pt/consultorio/os-homens-e-a-contracecao/ a 3 de abril de 2021.

3. Saúde Reprodutiva/Planeamento Familiar. Programa Nacional de Saúde Reprodutiva. Direção-Geral da Saúde. Lisboa, 2008.

4. Consenso sobre Contraceção 2020. Sociedade Portuguesa da Contraceção, Sociedade Portuguesa de Ginecologia, Sociedade Portuguesa da Medicina da Reprodução. 2020.

Governação Clínica
Editorial | Joana Romeira Torres
Governação Clínica

O Serviço Nacional de Saúde em Portugal foi criado e cresceu numa matriz de gestão napoleónica, baseada numa forte regulamentação, hierarquização e subordinação ao poder executivo, tendo como objeto leis e regulamentos para reger a atividade de serviços públicos no geral, existindo ausência de regulamentação relativa à sua articulação com os serviços sociais e económicos.

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