Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica: O que é e como a devo evitar?
DATA
16/11/2021 17:57:42
AUTOR
João Carvalho
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Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica: O que é e como a devo evitar?

A Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica (DPOC) é uma doença comum, prevenível e tratável, caracterizada por sintomas respiratórios persistentes e limitação do fluxo aéreo, devido a alterações das vias aéreas e/ou alveolares, causadas por exposição significativa a partículas nocivas.

A DPOC constitui um desafio deveras importante de saúde pública, sendo considerada uma patologia com elevadas morbilidade e mortalidade no mundo. De acordo com o Global Initiative for Chronic Obstructive Lung Diseases (GOLD) Report 2021, a DPOC é atualmente uma das três principais causas de morte a nível mundial, sendo que 90% das mortes ocorre em países em desenvolvimento. Em 2012, mais de três milhões de pessoas morreram de DPOC, representando 6% do número de mortes global nesse mesmo ano. Prevê-se que a sua prevalência venha a aumentar nos próximos anos devido à exposição contínua a fatores de risco para a DPOC, estimando-se que em 2060 o número de mortes seja de 5,4 milhões de pessoas.

Segundo o relatório do Programa Nacional para as Doenças Respiratórias 2012-2016, estima-se que a nível nacional esta patologia atinja 14,2% de pessoas com mais de 40 anos, encontrando-se contudo com níveis elevados de subdiagnóstico.

O tabagismo e a exposição ao fumo ambiental do tabaco são sem dúvida os principais fatores de risco para o desenvolvimento desta doença, sabendo-se que 10% a 15% dos fumadores vêm a desenvolver DPOC. Os indivíduos com idade avançada, os asmáticos, aqueles com exposição a irritantes ambientais como a combustão de biomassa (madeira ou carvão), a exposição ocupacional em ambientes com poeiras ou gases agressivos, a exposição a poluição nos grandes centros urbanos, indivíduos com status socioeconómico mais baixo, com infeções respiratórias de repetição na infância ou baixo peso à nascença, aliados a predisposição genética como o défice de alfa-1 antitripsina, poderão também desenvolver esta patologia.

As alterações da estrutura pulmonar, nomeadamente nas vias aéreas e a nível alveolar, resultantes da exposição aos agentes agressores, manifestam-se pelo desenvolvimento de inflamação dos brônquios e do parênquima pulmonar. Nos brônquios de grande calibre, esta inflamação é manifestada pela hipersecreção de muco, típica da bronquite crónica. Nas pequenas vias aéreas e nos alvéolos, essa inflamação vai condicionar a diminuição do calibre dos bronquíolos pelo processo inflamatório crónico da parede, contribuindo também para uma diminuição do calibre do lúmen brônquico.

Estas alterações a nível respiratório irão conduzir a sintomas que nos devem fazer suspeitar que estamos perante a presença de DPOC, particulamente nos indivíduos fumadores. O principal motivo para que esta seja uma patologia subdiagnosticada resulta do facto de a instalação desses sintomas ser tipicamente indolente, com início lento, levando à sua desvalorização por parte do próprio doente, que acaba por atribuir a sua presença ao evoluir da idade.

Os principais sintomas de alerta são a dispneia e a tosse, sendo este último muitas vezes o primeiro sintoma a surgir e a ser desvalorizado pelo facto de ser naturalmente atribuído ao tabagismo. A falta de ar, por si só, é um factor importante para o desenvolvimento de ansiedade e incapacidade nestes doentes. Além da tosse e da dispneia, surgem outros sintomas como a expetoração, geralmente mucosa e de predomínio matinal e que está presente em cerca de 30% dos indivíduos, o cansaço com os esforços, a sensação de aperto torácico após o exercício e pieira. Inicialmente, estes sintomas variam de dia para dia e podem anteceder o desenvolvimento de limitação do fluxo aéreo por alguns anos. Ao longo da doença, estas queixas vão-se tornando cada vez mais frequentes e presentes no dia a dia à medida que a doença progride. Com a evolução da patologia, a manutenção dos hábitos tabágicos, a falta de um diagnóstico atempado e a ausência de uma devida intervenção, os indivíduos com DPOC podem vir a ser confrontados com um quadro de grande incapacidade, com cansaço para pequenos esforços como vestir-se ou tomar banho. Nos casos mais graves, a sua qualidade de vida é drasticamente reduzida ao não permitir a realização normal das suas atividades de vida diária sendo que o doente acaba por evitar cada vez mais sair de casa, levando a um isolamento social progressivo.

Apesar da DPOC ser uma patologia de origem respiratória, o doente com DPOC é frequentemente um doente com múltiplas doenças, sendo as comorbilidades cardiovasculares, nas suas várias apresentações, nomeadamente a hipertensão arterial ou a insuficiência cardíaca, as mais comummente associadas. A depressão, a osteoporose, a diabetes ou o cancro do pulmão são outras comorbilidades que poderão estar presentes num doente com DPOC, levando a que os indivíduos com esta patologia se encontrem muitas vezes polimedicados.

É importante que o diagnóstico da doença seja feito atempadamente, através de um exame que avalia a função respiratória, a espirometria. É um exame padronizado, simples, indolor, não invasivo e de baixo custo, absolutamente fundamental para o diagnóstico da DPOC. São medidos o volume de ar inspirado e expirado e a sua velocidade, permitindo, além do diagnóstico de DPOC, a avaliação da gravidade da obstrução, a monitorização periódica da evolução da doença e a resposta às diferentes intervenções terapêuticas, farmacológicas ou não farmacológicas. São poucas as contraindicações para a sua realização, estando estas principalmente relacionadas com a incapacidade em realizar as manobras respiratórias necessárias.

Apesar de ser importante o diagnóstico precoce da DPOC, a realização de rastreios indiscriminados na população não está recomendado. Contudo, nos indivíduos com mais de 40 anos e com fatores de risco conhecidos, como o tabagismo (indivíduos com carga tabágica superior a 20 Unidades Maço Ano) ou com infeções respiratórias de repetição, a realização de espirometria é recomendada e permite muitas vezes o diagnóstico precoce.

Os objetivos principais na terapêutica da DPOC são a redução dos sintomas e diminuição do risco, através da prevenção da progressão da doença e número de exacerbações. A cessação tabágica é a principal medida que pode influenciar o curso da doença. Também importante é a redução da exposição a agentes agressores, como por exemplo na exposição ocupacional. Ao conseguir a evicção do tabagismo ou do fumo proveniente de biomassa, o indivíduo com DPOC elimina o principal agente agressor das vias aéreas, conseguindo assim uma maior estabilização da doença.

Na última década, a evolução da terapêutica farmacológica na área da DPOC tem apresentado um desenvolvimento considerável. Os broncodilatadores são os fármacos de eleição para o tratamento da DPOC. A via de eleição para a sua realização é a via inalatória, permitindo assim a realização da medicação através de inaladores, dispositivos que contêm substância ativa com propriedades broncodilatadoras. Existe uma grande diversidade de inaladores, o que permite que a escolha de um inalador seja individualizada, dependendo por exemplo da gravidade dos sintomas ou da capacidade inspiratória do doente, podendo ser escolhidos inaladores de pó seco, inaladores pressurizados ou em nuvem. Para serem eficazes, os inaladores têm que ser realizados de forma correta, para que as partículas broncodilatadores sejam libertadas adequadamente nas vias aéreas. Assim, é importante que a técnica inalatória seja ensinada e revista frequentemente por um profissional de saúde. É de salientar que a realização correta e diária dos broncodilatadores leva a um maior controlo dos sintomas, aumento da tolerância ao esforço, prevenção do número de exacerbações, redução do número de hospitalizações, levando a uma melhoria da qualidade de vida e a um menor risco de morte.

Aliadas à cessação tabágica e à terapêutica farmacológica, existem ainda outras medidas importantes no controlo da doença, como a vacinação e a participação em programas de Reabilitação Respiratória. A realização da vacina da gripe anualmente, tem demonstrado uma boa eficácia na diminuição do número de hospitalizações por infeções repiratórias. A vacinação anti-pneumocócica, também conhecida por vacina da pneumonia, está também recomendada para todos os indivíduos com 65 ou mais anos.

A Reabilitação Respiratória, por seu lado, é uma intervenção integrada, com base numa avaliação completa do doente incluindo, mas não limitando, componentes de exercício físico, educação e mudança de comportamento projetado para melhorar a condição física e psicológica do doente com doença respiratória crónica, tendo como objetivo promover a adesão a longo prazo de comportamentos que melhoram a saúde. Pode ser realizada em contexto hospitalar ou na comunidade, quer em centros de saúde, clínicas de reabilitação ou no próprio domicílio do doente.

Tendo em consideração que estamos perante uma doença que atualmente já é a terceira principal causa de morte no mundo e com muitas comorbilidades associadas, é essencial continuar a apostar em estratégias de prevenção no tabagismo e promoção de estilos de vida saudáveis, medidas extremamente importantes para que a incidência e prevalência da DPOC venham a diminuir no futuro.

 

Bibliography

1. Marta Drummond et al. 100 Perguntas Chave na DPOC. 2015.

2. Alvar Agusti et al. Global Initiative For Chronic Obstructive Lung Disease. 2021. 3. Carvalho, João. DPOC e Reabilitação Respiratória. Revista Sábado. 2018.

Governação Clínica
Editorial | Joana Romeira Torres
Governação Clínica

O Serviço Nacional de Saúde em Portugal foi criado e cresceu numa matriz de gestão napoleónica, baseada numa forte regulamentação, hierarquização e subordinação ao poder executivo, tendo como objeto leis e regulamentos para reger a atividade de serviços públicos no geral, existindo ausência de regulamentação relativa à sua articulação com os serviços sociais e económicos.

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