Governação Clínica
DATA
18/11/2021 15:48:47
AUTOR
Joana Romeira Torres
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Governação Clínica

O Serviço Nacional de Saúde em Portugal foi criado e cresceu numa matriz de gestão napoleónica, baseada numa forte regulamentação, hierarquização e subordinação ao poder executivo, tendo como objeto leis e regulamentos para reger a atividade de serviços públicos no geral, existindo ausência de regulamentação relativa à sua articulação com os serviços sociais e económicos.

Os Cuidados de Saúde Primários (CSP) não foram exceção, e ao longo dos tempos refletiram essa mesma grande concentração de poder e escassa flexibilidade de articulação com as demais valências de um estado, impedindo a criação de mecanismos que levassem ao seu funcionamento eficiente.

Foi neste contexto que, mais recentemente, surgiu a necessidade de olhar a “produção dos cuidados de saúde” de forma diferente. Efetivamente, nos últimos anos ocorreu uma transformação de sucesso nos CSP, mediante a incorporação na sua gestão da escolha de prioridade para uma governação com base em critérios de eficácia, eficiência e equidade. Estes critérios são designados, em termos de gestão, como conceito de “valor”.

A gestão nos CSP baseada no valor alcança o objetivo essencial de obtenção dos melhores resultados clínicos (que importam para os doentes), com a satisfação do profissional e do utente e com os menores custos possíveis. O alcance deste objetivo permite entregar serviços de alta qualidade, que, por sua vez, resultam em melhorias claras de qualidade de vida e de gastos financeiros contidos, que permitem a criação de sustentabilidade a longo prazo do sistema, uma vez que gera poupanças de recursos e oportunidades de aprendizagem com reinvenção sistemática de instrumentos, permitindo criar valor sustentado e viabilidade económica.

A componente mais visível e central para o alcance de uma gestão baseada no valor é precisamente a Governação Clínica, na medida em que coloca o foco da gestão numa abordagem integrada de manuseamento de inputs, e instrumentos visando a obtenção de melhores resultados na prestação de cuidados de saúde e da qualidade nas suas diferentes dimensões (segurança, eficiência, efetividade, acessibilidade, equidade, continuidade e respeito). Em suma, coloca o foco da gestão na centralidade do utente e mede os resultados (outcomes) na respetiva perspetiva.

Até ao momento atual, a governação clínica baseada no valor tem-nos levado a evoluir constantemente, nomeadamente com a integração de cuidados entre várias entidades (publicas, privadas, económicas, sociais, etc.), uso e criação de novas tecnologias de informação e de comunicação ao serviço da prestação de cuidados de saúde, aumento da realização de investigação e debates na área da saúde dos CSP, disseminação de ideias junto dos profissionais e capacitação dos utentes, entre outros.

Muito já se fez e muito ainda há a fazer neste sentido, muitos criticam esta metodologia atual de gestão da saúde como sendo apenas mais uma versão instrumental das indústrias de saúde para causarem a restrição orçamental pública e aproximar as dimensões saúde e mercado económico. Será? O futuro com certeza nos dirá se isso é verdade.

 

Governação Clínica
Editorial | Joana Romeira Torres
Governação Clínica

O Serviço Nacional de Saúde em Portugal foi criado e cresceu numa matriz de gestão napoleónica, baseada numa forte regulamentação, hierarquização e subordinação ao poder executivo, tendo como objeto leis e regulamentos para reger a atividade de serviços públicos no geral, existindo ausência de regulamentação relativa à sua articulação com os serviços sociais e económicos.

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